novas fronteiras

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O administrador Wanderson Fernandes no sítio onde mora, no Acre: clubes levam rótulos de qualidade às áreas mais longínquas do país

Há 15 anos, quando começou a trabalhar com importação de vinhos, o carioca José Augusto Saraiva saia pelo Brasil com algumas garrafas especiais debaixo do braço tentando colocá-las em empórios e restaurantes de cidades distantes.  “Ía lá para o interior de Minas, do Nordeste”, conta. “Quando começava a explicar o produto, as pessoas ficavam olhando para mim como se eu fosse louco. Ninguém nunca tinha ouvido falar em denominação de origem controlada, terroir ou qualquer uma dessas coisas”. Hoje administra um clube de vinhos. O Vinetude, como boa parte dos clubes do país, chega a área bem mais isoladas do que aquelas que Saraiva visitava. “Tem sócio no interior do Pará”, diz. “As garrafas chegam no correio da cidade mais próxima e de lá seguem de barco até as casas dos sócios”.

Hoje no Brasil existem dezenas de clubes, juntos todos os meses eles entregam centenas de milhares de garrafas de vinhos escolhidos a dedo em casas tanto das grandes capitais quanto de povoados longínquos. Com essas garrafas, costuma seguir algum tipo de informação impressa: revistas, newsletters, etiquetas caprichadas, etc. Um complemento à   a uma montanha de conteúdo digital que os sócios dos clubes têm acesso.  Com elas, vai se espalhando a cultura do vinho pelo país e, cada vez menos, as pessoas acham estranho quando você fala de um vinho DOC.

Wanderson e Iraci na varanda de seu sítio

Wanderson e Iraci na varanda de seu sítio

A maioria dos sócios desses clubes são homens entre 35 e 55 anos, mas boa parte deles toma os vinhos que recebe com a mulher. Não raro, quando chega em casa depois de um dia de trabalho, o administrador de empresas Wanderson Fernandes, de 44 anos, abre um vinho para tomar com a esposa, Iraci. Sócios do ClubeW, o maior do Brasil ( 45 mil sócios) , o casal prepara uma comida especial, leve, para acompanhar os vinhos mandados pelo clube e outros comprados no e-commerce que mantém o clube, o Wine.com.br. Não só tomam, como degustam, reparam nos aromas, comentam as características. Detalhe: o casal mora em um sítio em Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, a 700 quilômetros de Rio Branco, em meio à floresta amazônica .

Mineiro criado em Rondônia, Fernandes sempre preferiu cerveja, mas um cunhado de Rondõnia o convenceu a experimentar o clube, e os vinhos se tornaram um hobby. Auditor da Receita Estadual do Acre, Fernandes diz que não está isolado, vê muitas caixas do clube chegando à sua cidade, que tem 80 mil habitantes. “A gente está bastante empolgado com o vinho”, diz. “Se não fosse a internet seria impossível ter esse hábito”, diz. “Aqui na cidade, não se encontra quase nada para comprar. Mesmo em Rio Branco, o vinho é mal condicionado. Tem gente que vai até Cobija, na Bolívia, porque lá tem uma adega boa. Mas são mil quilômetros…”

A moda dos clubes de vinhos  ainda não alterou o consumo per capita no Brasil, que permanece em meros 2 litros ao ano, incluindo nessa estatística o vinho de garrafão. Mas tem rompido algumas barreiras importantes para a popularização do vinho fino, aquele feito com uvas de variedades europeias. “Antes o consumo de vinho era domínio de aficcionados, gente que lia muito à respeito, participava de confrarias”, diz Saraiva, professor de e-commerce do curso Wine Business: o Negócio do Vinho da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. “Isso afastou muita gente que não estava dispostas a ‘estudar’ o vinho. Muitas vezes, quando você pergunta a uma pessoa se ela gosta de vinho a resposta é: ‘eu não entendo de vinho’. Como assim? Se eu perguntar ‘você gosta de praia’, ninguém vai responder ‘eu não entendo de praia’. O bom dos clubes é que você não precisa entender, basta gostar.”

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Vicente Jorge (esq.), winehunter da Wine.com.br, caminhando pela vinícola Mac Murray Ranch, na Califórnia, em Janeiro 2013. Especialistas dos clubes visitam produtores por todo o mundo para selecionar vinhos que serão distribuidos aos sócios

Antes dos clubes, no entanto, a necessidade de entender de vinhos não era apenas uma frescura. “Diante de uma prateleira com uma infinidade de rótulos, como a pessoa vai saber o que comprar?” pergunta Anselmo Edlich, um dos proprietários da  Wine.com.br.  “Para isso, a gente tem os winehunters, pessoas que rodam o mundo em busca de produtos de boa qualidade por um bom preço.”  Winehunters, curadores, sommeliers, o nome do responsável pela escolha dos vinhos a serem distribuídos para os associados varia de clube para clube, mas a forma de trabalhar desses especialistas costuma ser bem parecida. Vão às grandes feiras de vinhos na Europa para descobrir vinícolas que valem uma visita e depois saem conhecendo produtores. Às vezes, viajam direto a uma pequena região atrás de vinícolas que não estejam se promovendo em feiras. No caso da Wine.com.br, há ainda uma pessoa baseada na França para receber amostras para teste sem passar por toda a burocracia da aduana brasileira.

Em geral, esses profissionais realmente escolhem rótulos interessantes, de boa qualidade e com muito mais personalidade do que aqueles que encontramos nos supermercados. “Com isso, você praticamente elimina o risco do associado de gastar dinheiro com um vinho que ele não vai gostar”, diz Ana Norato, diretora de marketing do Sociedade da Mesa Clube de Vinhos. Além disso, na maior parte dos clubes, os associados são comunicados previamente sobre qual será a seleção de vinhos do mês e têm a opção de cancelar a entrega caso não gostem daquele estilo de vinho.  O vinho pode ser de ótima qualidade, mas a gente tem direito de não gostar. Alguns clubes, levam isso a ferro e fogo. Mesmo que o associado tenha aberto a garrafa e tomado o vinho, se escrever ou ligar dizendo que não gostou, eles mandam uma garrafa de outro rótulo para compensar a ‘chateação’. Confiança é uma palavra-chave nesse negócio.

Alguns desses clubes fazem importação própria, outros usam importadoras para intermediar os negócios. Mas, na maioria das vezes, por se tratar de uma compra coletiva, em grandes quantidades, os clubes conseguem repassar os vinhos para os associados por um preço bem abaixo do praticado pelas importadoras. Aí, o clube passa a interessar também a quem já entende um tanto de vinho, especialmente quando o clube é personalizado. No Sonoma Concierge,  por exemplo, o sócio pode participar ativamente da escolha do vinho e cada pessoa recebe uma seleção diferente em sua casa. “Pode ser mais trabalhoso”, diz Alykhan Karin, um californiano que se mudou para São Paulo para fundar o Sonoma. “Mas para nós o importante é fidelizar o sócio.”

Formado em enologia na França, Paulo Alves está descobrindo novas regiões

Formado em enologia na França, Paulo Alves está descobrindo novas regiões

O engenheiro agrônomo Paulo Alves, de 26 anos, estudou agribusiness e enologia na França. Lá se acostumou a tomar bons vinhos. Mas, quando voltou para casa em Araras, no interior de São Paulo, onde trabalha com monitoramento de imagens por satélite, sentiu que suas opções eram limitadas. “Em Araras, tem dois empórios que vendem basicamente os mesmos vinhos”, diz. “O supermercado nem se fale. Então, fui pesquisar na internet e descobri os clubes. Mas fiquei com medo de me comprometer com uma grana e não me interessar tanto pelo vinho que mandassem. Aí descobri o Concierge no Facebook e me inscrevi . Duas horas depois, me ligou um sommelier para saber do que eu gostava. Depois de traçarem meu perfil sensorial, pedi que me surpreendessem. Eles me mandaram um vinho libanês: me ganharam no primeiro mês. Na França. você acaba estudando só os vinhos franceses. Agora, com o clube, estou descobrindo novas regiões do mundo.”

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