dez tintos para o verão

IMG_20140131_010754 (2)Uma vez perguntei a um chef pernambucano, qual tinto era mais apropriado para o clima quente do Nordeste. “Qualquer um”, ele me respondeu. “A gente toma vinho em ambientes com ar-condicionado”. Reconheço que a pergunta foi  malfeita, mas se refrigeração ambiente fosse a única solução para encarar um  vinho tinto em dias muito quentes, eu só poderia tomar tinto em (alguns) restaurantes de outubro a abril. A minha casa não tem ar-condicionado, assim como a casa da maioria dos meus amigos e de mais de 90% da população de São Paulo (se bem que, com com as temperaturas escaldantes dos últimos dias, muitos paulistanos, como eu, devem estar repensando essa opção). Alguns anos e muitas taças mais tarde, hoje sei que, graças a Deus, existem tintos que não batem de frente com o clima tropical. Tintos mais leves, que podem ser consumidos quase gelados. Para saber como identificá-los, dê uma olhada no post Tinto na geladeira?. Para quem quer ir no certo, aqui já vão algumas sugestões:

PARA TOMAR À BEIRA DA PISCINA

Morandé  Pionero Pinot Noir 2010

morandé

Vinhos feitos com a uva pinot noir podem ser espetaculares, grandes Bourgogne (cujo ícone máximo é o famoso e caríssimo Romanée-Conti), que merecem ser bebidos com toda a reverência do mundo. Podem também ser leves, fáceis, ótimos para serem consumidos geladinhos em uma tarde de verão. O que eles não podem ser é pesados, escuros, cheios de taninos. No Novo Mundo, infelizmente, muitas vezes o pinot noir é assim. O clima quente cozinha os aromas delicados da uva, o excesso de umidade faz com que ela fique vigorosa e com a casca grossa ou o enólogo simplesmente exagera no tempo de barrica. Há grandes pinots na Nova Zelândia, nos Estados Unidos e, até, na América do Sul. Mas, em geral, são caros. Quando aparece um pinot noir simples, mas leve e elegante como o chileno Morandé Pionero, é preciso comemorar, de preferência com um brinde dele mesmo. Não tem a complexidade de um Bourgogne, mas nem pretende isso. Produzido na região de Casablanca, que por ser fria é uma das melhores do Chile para a pinot noir, o Pionero tem uma cor bonita, viva e translúcida, como deve ter um pinot. No nariz, há fruta fresca e algo terroso, talvez um cheirinho de cogumelho recém colhido do bosque. Na boca, é seco, leve e frutado. E o preço é o melhor de tudo: R$ 39, na Expand, e está em promoção por R$ 31,84.

LAM Pinotage 2011     

lam

A pinotage, uva nacional da África do Sul,  já é bem menos séria que a pinot noir. Talvez  esteja sendo injusta. Não sou especialista em pinotage.  Mas tenho a impressão de que a vocação desta casta, criada em 1925 pelo cruzamento da pinot noir com a cinsault (uma uva do sul da França, que na África do Sul é conhecida como hermitage), é justamente produzir vinhos cheios de aromas de frutas e fáceis de beber. Na minha opinião, ser menos séria não significa ser pior.O LAM é um ótimo exemplo disso. Além de bastante frutado, é muito leve e fresco, nada sisudo.  Leve, porque não se percebem os taninos. Gelados, eles não amargam. Fresco, porque tem aquele azedinho gostoso da fruta. Tanto no nariz quanto na boca, além da fruta vermelha fresca, sinto goiaba vermelha e um leve toque de couro.  Quem não está acostumado a degustar, provavelmente, vai sentir apenas um cheirinho e um gostinho bom.  Robert Parker deu 90 pontos e John Platter (maior crítico sulafricano), quatro estrelas à safra 2011. Trazido para o Brasil pela importadora Qual Vinho?, ele custa R$ 65.

Cono Sur Single Vineyard Pinot Noir 2011

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Assim como o Vale de Casablanca, o Vale de San Antonio tem o clima bom para a produção de uvas pinot noir. Por estar próximo à costa, recebe a brisa fria do Pacífico, que faz com que a pinot amadureça lentamente, tendo tempo de desenvolver uma variedade de aromas (quando a uva amadurece rapidamente o açúcar sobe antes dos aromas terem tempo de aparecer). Lá a Cono Sur, uma vinícola butique do grupo Concha y Toro, produz o Single Vineyard Pinot Noir, parte de um projeto para produzir vinhos a partir de parcelas isoladas de vinhedos ideais para o cultivo de uma determinada uva. No caso da pinot, o vinhedo mágico é o bloco 21, conhecido como Viento Mar. Como diz o nome,  está voltado para o oceano, bastante exposto ao vento frio. Um pouco mais encorpado que o primeiro pinot de que falamos, este vinho continua leve o bastante para se tomar à beira da piscina. Tem um pouco mais de complexidade aromática. Além de frutas vermelhas frescas, como framboesa e morango, tem algo de fruta negra, como cereja, algo bem leve de café e chocolate. O toque terroso, que adoro no pinot noir, ainda está leve. Custa cerca de R$ 60.

Ostatu Tinto 2011

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Quando a gente pensa em um Rioja, pensa em um vinho encorpado, super potente. De fato, boa parte dos Riojas são assim, já que nessa região da Espanha é comum deixar o vinho amadurecer anos em barris de carvalho. No entanto, existem os Riojas jovens, que não passaram ou passaram muito pouco tempo em madeira e que são, senão muito leves, bastante frescos. É o caso deste vinho. Tinto mais simples de uma pequena bodega familiar, o Ostatu tem aroma de fruta bem fresca. Na boca, é redondo, mas não untuoso. O corpo é de médio para leve, tanto que o vinho é translúcido. Até parece um vinho potente, só que não pesa no estômago. Fantástico para acompanhar um churrasco, por exemplo. Importado pela Cultvinho, ele custa R$ 60.

PARA UM JANTAR ESPECIAL À LUZ DO LUAR

Brancott Estate Pinot Noir 2012

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 A pinot noir se deu muito bem na Nova Zelândia. Os vinhos pinots de lá são famosos e de fato bons, mas muitas vezes quase tão caros quanto um Bourgogne. O pinot mais simples da Brancott Estate é uma opção de preço razoável, R$ 79. Posso parecer louca ou rica, quando digo que 79 reais é razoável. Mas, para um bom pinot noir, não é muito, acredite. Especialmente se for neozelandês. E este está muito gostoso, leve, delicado. Tem uma cor de groselha, é brilhante. No nariz, lembra um Bourgogne simples: tem fruta vermelha, algo de flor, um toque de couro, outro terroso. Apesar de ser novo, da safra 2012, parece até um vinho um pouco evoluído. Não deve durar muitos anos. Mas quem quer esperar anos para bebê-lo?

Chiarli Vecchia Modena Premium 2011

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Em algum momento da sua educação enófila, você já ouviu ou vai ouvir falar que os lambruscos são vinhos vagabundos, feitos para quem não entende nada do assunto. Tento sempre lembrar que o melhor vinho é aquele que você gosta. Porém, tenho de admitir que  também tenho preconceito contra lambrusco. Acontece que, na sua maioria, os lambruscos são mais do que simples, são feitos sem cuidado. Agradam principalmente porque têm açúcar. No entanto, quem entende de fato de vinho sabe que existe lambrusco bom. Este é o melhor deles. Produzido pela Cleto Chiarli e Figli, uma das casas mais tradicionais da denominação lambrusco di Sorbara, recebeu até “tre bicchieri” (três copos), a classificação máxima do guia de vinhos italianos mais respeitado, o Gambero Rosso. Tem muito barolo e brunello de Montalcino que não tem esse status.  E, melhor, custa cerca de R$ 70. Para o verão, acho difícil pensar num tinto melhor. Na verdade, é covardia compará-lo com outros tintos, porque ele é quase rosé de tão claro. Tem aroma frutado e floral, bastante intenso e persistente. Na boca, é leve e deliciosamente azedinho. O gás natural o torna ainda mais fresco. E o álcool é bem baixo: 11 graus.

Chianti Cetamura 2010

chianti

Chianti é outra denominação que foi um tanto injustiçada pela opinião pública. Um chianti pode ser fantástico. Especialmente um chianti clássico, denominação mais exclusiva dentro da região de Chianti, na Toscana. Contudo, para beber numa noite de verão, resfriado a uns 12 graus, o melhor é ficar com um chianti simples. O importante é que seja de um bom produtor. A Badia a Coltibuono, que produz o Cetamura, produz grandes chianti clássicos e um espetacular super toscano. No ano passado, quando Emanuela Stucchi Prinetti, da família proprietária, esteve no Brasil, jantei com ela e provamos toda a linha. O Cetamura é mais simples, mas tem o mesmo padrão de qualidade dos outros. Emanuela é adepta do Slow Wine, movimento ligado ao pessoal do Slow Food, e tem orgulho de dizer que os vinhos da Badia a Coltibuono são feitos de forma muito tradicional, e devem ser consumidos, sem pressa, com a comida.  o Cetamura, como os outros, tem uma cor linda, translúcida, é elegante e delicado. Um corte de sangiogese (90%) e canaiolo, não passa por carvalho. Custa cerca de R$ 85, na Mistral.  

Guy Amiot et Fils Bourgogne Pinot Noir 2010

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Os vinhos da Borgonha, na França, conseguem ser ao mesmo tempo leves e complexos. Com pouco taninos, sempre feitos apenas de pinot noir (com exceção dos beaujolais), os tintos são perfeitos para dias quentes. O único problema é que costumam custar caro. Um grande borgonha com certeza será uma delícia para tomar numa noite despretensiosa na varanda. Mas, ao menos que você esteja podendo gastar milhares de reais em vinhos, procure por garrafas mais simples de bons produtores. As mais baratas são as que, além do nome do produtor, trazem em destaque no rótulo apenas o nome Bourgogne. Se além de Bourgogne vier também o nome de uma cidade, você já está diante de um village. A maneira mais fácil de não errar na hora de comprar um borgonha genérico de um bom produtor é pedir exatamente por isso a um importador ou lojista de sua confiança. O Guy Amiot Pinot Noir é um básico muito bom. Eu tinha em casa o 2010. Você talvez só encontre o 2011. Mas, com certeza, também será bom. Já tomei várias safras e nunca me decepcionei. É translúcido, com uma cor viva. No nariz, se sente aromas de flor, amora e aparece algo meio terroso, um cogumelo, algo que deve crescer bastante quando este vinho envelhecer um pouco mais. Na Grand Cru, sai por R$ 131.

Marcel Lapierre Morgon 2010

IMG_20140129_172607 (2)Quando se fala em vinho tinto bom para o verão, para ser tomado fresquinho, o primeiro nome que vem à cabeça de alguém com alguma experiência na área é Beaujolais. A região, que faz parte da Borgonha, na França, ficou famosa principalmente por causa do beaujolais noveau, um vinho extremamente jovem e leve, mas não de muita qualidade, que não pode ser guardado por mais de que uma meia dúzia de meses. Embora algumas pessoas torçam o nariz porque ele é um produto feito para o consumo de massa, o beaujolais noveau pode até ser uma boa escolha para uma tarde descompromissada. Porém a região também tem opções para quem quer algo de mais qualidade: vinhos feitos em regiões demarcadas conhecidas como crus de Beaujolais. O mais famoso deles, um pequeno lugarejo chamado Morgon, produz vinhos excepcionais. São leves já que, assim como o noveau, são feitos da uva gamay (variedade de casca bastante fina), mas têm complexidade de aromas. Este é do produtor Marcel Lapierre, considerado o responsável por recuperar a reputação de Beaujolais depois que a região passou a ser identificada apenas pelo seu vinho mais barato. Muitos o consideram o melhor dos beaujolais. Escuro no copo, é bastante fresco no nariz e na boca. Sente-se aromas de frutas vermelhas e negras, especiarias (cravo, pimenta-do-reino) e alcaçuz. É leve, mas diz ao que vem, com uma ótima permanência de aromas. Custa R$ 155, na World Wine.

Dr. Heger Vitus Spätburgunder 2007

vitusSpätburgunder nada mais é do pinot noir em alemão. A Alemanha produz grandes pinots, especialmente na região de Baden. Este não deixa muito a dever a um bom Bourgogne. Poucos vinhos me causaram a impressão que o Vitus me causou. Na taça, é mais escuro e mais denso que os pinots chilenos e que o francês citados acima. Tive dificuldade para enxergar através dele. Temi que não fosse muito delicado. Mas logo que levei a taça ao nariz, subiu um aroma fresco de jasmim, me remetendo imediatamente ao jardim da casa de meu avô. Arrepiei. Amo vinho, mas nunca tinha tido essa reação antes diante de uma taça. É um vinho emocionante. Além do jasmim, tem frutas e flores em profusão, no nariz e na boca. Tem também especiarias, couro, tudo em harmonia. O corpo é médio, com alguns taninos, mas tão delicados que, mesmo com o vinho gelado, não amargam. No entanto, sugiro que, neste caso e no caso dos três vinhos anteriores, você dê tempo para perderem o gelo na taça. Só assim, conseguira sentir todos os aromas. No bolso, é um pouco salgado: R$ 163,40. Mas está em promoção por R$ 98, no site da Decanter.

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