Estrada do Sul: indo onde poucos vão e bebendo o que poucos bebem

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Vinhedo do mundo: 401 variedades de 30 países, sendo 164 em produção

De início, tínhamos combinado nos encontrar na Serra Gaúcha por 3 dias para beber vinho e jogar conversa fora. Depois, fomos enlouquecendo e a viagem se transformou em um tour de carro de quase três semanas pelas vinícolas do Rio Grande do Sul e do Uruguai. E cá estamos nós, bebendo um monte de vinho e jogando muita conversa fora.
Cheguei na terça-feira (18), três dias antes de meus amigos, para fazer visitas técnicas junto a alguns jornalistas que viajavam  pela Serra à convite do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho). Foram três dias de muito trabalho. Fomos a várias vinícolas: Dal Pizzol, Cristofoli, Salton, Casa Valduga, Don Giovanni e Luiz Argenta. Em cada uma delas, tive a dura incumbência de experimentar vinhos e mais vinhos, acompanhados de pratos e mais pratos. Dê uma olhada no post Vinhos que Tomei e que Pretendo Voltar a Tomar.


Começamos pela Dal Pizzol, uma vinícola familiar, fundada nos anos 70, que desde então tem feito um trabalho muito consistente. Conheço esse vinho há muito tempo. Nos anos 90, a mãe do meu ex-marido costumava comprar caixas do vinho Do Lugar para presentear a família. Eram caixas muito bem-vindas, eu gostava bastante do vinho, mas teve um safra com a qual impliquei. Achei que o conteúdo da garrafa estava estragado e mandei de volta. Hoje tenho quase certeza que errei, esse vinho estava bom, só não estava pronto. Para quem não sabe, um vinho que não está pronto não é um vinho que foi engarrafado antes da hora e, sim, um vinho cujos aromas, taninos e/ou grau de acidez precisam de alguns anos na garrafa para se tornarem agradáveis. Isso costuma acontecer com muitos dos chamados vinhos de guarda.
E a Serra Gaúcha tem se provado uma região capaz de produzir vinhos de guarda, para espanto de muitos brasileiros tão descrentes do potencial do vinho nacional. Abertas hoje, garrafas dos anos 90 de Baron de Lantier, Forestier e outras marcas que a gente achava bem mais ou menos estão ótimas. Vinte anos são muito tempo para um vinho! Durar tudo isso é uma prova de qualidade. A Dal Pizzol faz vinhos com essa capacidade e é uma das poucas vinícolas com uma boa coleção de garrafas antigas. Em 2011, quando estive por aqui, pedi ao senhor Antonio Dal Pizzol para provarmos uma garrafa desses vinhos antigos, e ele abriu um cabernet sauvignon 1991. Gostei tanto que comprei quatro garrafas. Era um vinho sem a exuberância da juventude, mas ainda com bastante vigor, com aromas de couro, terra que aparecem mesmo com a idade.

Dal Pizzol Cabernet Sauvignon 1985

Dal Pizzol Cabernet Sauvignon 1985

Na quarta-feira agora, cheguei à Dal Pizzol já mal intencionada: queria provar um vinho ainda mais velho. Visitamos a propriedade, que fica num parque lindo, passeamos pelo Vinhedo do Mundo, a terceira maior coleção de variedades de uvas plantadas em um só vinhedo, bebemos ótimos vinhos das últimas safras e comemos muito bem. Mas eu só pensava nos meus velhinhos. Por fim seu Antonio abriu para nós um merlot 1991 e cabernet sauvignon 1985. Do merlot todo mundo gostou, mas as opiniões se dividiram quanto ao cabernet 1985. Teve gente que disse que o vinho estava morto porque não tinha mais aromas de fruta. Eu digo e assino embaixo que estava vivo e muito agradável. ele tinha outros aromas, terrosos, animais, um pouco de fruta passa. Muito sutil e elegante. Na boca já bem leve. É uma questão de gosto. E você como prefere seus vinhos: jovens ou velhos? Quanto ao Dal Pizzol 1985, você só vai poder opinar se vier até a Serra Gaúcha. Esse é o tipo de experiência que só é possível na região produtora. Esse vinho não tem preço. Seu Antonio diz que não sabe nem quanto cobrar por ele. Se sentir que o visitante realmente se interessa pela história de seus vinhos é capaz de dar um vinho velho de graça.

Sexta-feira (21) encontrei meus amigos e deixei o trabalho de lado. Comecei a beber por diversão, o que no fundo bem pouco diferente do trabalho. É só mais descontraído, ainda mais aberto para imprevistos e descobertas. Estávamos almoçando na Casa Vanni, quando Cláudia disse que queria conhecer a vinícola Estrelas do Brasil, cujos espumantes têm ganhado tudo quanto é prêmio. Navarro, o ótimo sommelier do restaurante, nos explicou como chegar lá, e fomos sem agendar, contrariando minhas próprias recomendações no post Manual do Turista com Mania de Bóia-fria.

A vista da vinícola Estrelas do Brasil

A vista da vinícola Estrelas do Brasil

Chegamos no fim-da-tarde. Irineo Dall’Agnol, o sócio que mora na vinícola, nos recebeu de shorts e sandália Havaiana. “Por que vocês não agendaram?”, foi a primeira pergunta. “Deram sorte. Acabei de chegar”. O cenário era indescritível, mas vou tentar descrever. A Estrelas do Brasil fica no topo de um morro super alto que dá vista para um vale profundo cercado de montanhas também bastante altas por todos os lados, boa parte do vale e das montanhas é coberta de vinhedos. As nuvens estavam abaixo de nós. Enólogo da Embrapa, Irineo dedica suas horas vagas a Estrelas do Brasil. É uma figura, fala com sotaque carregado de italiano, é empolgado, tem opiniões firmes sobre tudo. Os vinhos são ótimos. Irineo deve ter aberto umas seis garrafas para degustarmos. Bebemos tudo e acabamos ficando lá até tarde da noite, conversando e olhando estrelas. Outra experiência que só vive quem viaja por regiões produtoras.

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