estrada do sul: 12 vinhos e pratos uruguaios para apetites vorazes

parrilla lotada de carnes, embutidos e legumes

Über larica: parrilla no Mercado do Porto, em Montevidéu, lotada de carnes, embutidos e legumes

Tomei vinhos fantásticos na viagem pelo Uruguai: de Punta del Este a Colonia del Sacramento encontrei grandes tannats, a casta que se tornou símbolo do país, mas também ótimos brancos, tempranillos surpreendentes, pinots noirs maravilhosos.  Como ainda não é possível encontrar maconha legal para vender por lá, voltei para o Brasil sem testar a harmonização desses vinhos com marijuana, como havia prometido a meu editor no Brasil Post. Tentei, como está descrito no post anterior. Mas não rolou. Enfim ,um bom sommelier tem de saber fazer harmonizações usando apenas a cabeça.  Então, vamos lá! Em primeiro lugar, é de conhecimento geral que consumir maconha dá uma fome desgraçada. Maconheiros não querem saber de miséria. Têm fome de sanduíches enormes, pratos gigantescos e bandejas fartas de salgadinhos. Costumam  ter apetite voraz para doces. Nas andanças pelo Cone Sul, reparei que o uruguaio, como os maconheiros, não gosta de mixaria, quer fartura, grandes parrilladas, chivitos gigantescos, porções descomunais de dulce de leche. Assim, fica fácil! As sugestões de harmonização a seguir entre vinhos uruguaios com pesticos,  sanduíches ou pratos de restaurantes locais, imagino, vão funcionar bem tanto para quem fumou como para quem não quer nem sentir o cheiro dessa erva do diabo. Basta estar com fome! 

Larica em si mesmo

Para quem chega ao bar morto de fome, nada melhor do que uma bebida que é também uma comida. Como declarei mil vezes, não fumei nada durante minha viagem. Mesmo assim, cheguei varada de fome ao badaladíssimo Parador La Huella, em José Ignácio, a Trancoso uruguaia (leia-se um monte de rico, e gente que quer parecer rica, com roupa de grife e sandália Havaiana). Vínhamos de uma degustação na Agroland, que produz os deliciosos azeites Colinas de Gárzón e os ótimos vinhos da Bodega Garzón, seguida de uns petiscos com mais vinho em um café do charmoso Pueblo Garzón. Não era mais hora de almoçar e nós não queríamos beber outra garrafa de vinho. Mas ficamos com vontade de fazer uma hora no bar do La Huella, que é de fato super agradável, com seu ar rústico e chique ao mesmo tempo. A Cláudia sugeriu um clericot. Achei perfeito. A bebida que mistura vinho branco com frutas era justamente do que eu estava precisando. No post O drinque dos chiques e famosos, dou a receita que me foi gentilmente cedida pelo garçom hipster .

Fora do lugar-comum

tamarindo

IMG_20140303_182901Maconheiros não obrigatoriamente têm de ser trogloditas. Também podem amar algo requintado. Com as papilas aguçadas para os sabores adocicados, vão adorar as tâmaras, envoltas em panceta (bacon), com redução de vinagre balsâmico, servidas no Dcepa, Art & Cuisine em Pueblo Garzón, um vilarejo hippie-chic perto de Punta del Este. Para harmonizar com essas iguarias, sugiro o ótimo albariño da Bodega Garzón, uma vinícola botique da região que tem um projeto bárbaro de azeites de oliva há apenas alguns quilômetros dali. O docinho da fruta e da redução, em contraste com o azedinho do albariño, fizeram com que eu, mesmo sem ter fumado nada, quisesse continuar comendo e bebendo aquilo para sempre. Imagino o que sentiria alguém sob o efeito de psicotrópicos …

Alma espanhola

dcepa

IMG_20140303_081718Certamente, a mesa uruguaia não nega a sua origem ibérica.  A espanholíssima batata brava, que eu amo de paixão, pode ser encontrada em qualquer lugar, do boteco mais simples ao restaurante mais chique. As da foto são do Dcepa. Para enfrentar essa batata com molho de tomate super apimentado, é preciso um vinho potente. Eu sugiro um tempranillo, a mais espanhola de todas as uvas. Combinar vinho e comida de acordo com sua região de origem costuma não dar erro. O tempranillo da Bouza, uma bodega linda, na saída de Montevidéu, é estupendo. Tem um aroma super concentrado de fruta escura, mas sem aquele cheiro enjoativo de fruta madura em excesso. Na boca é redondo e macio. Vai muito bem com carnes, mas encara uma batata brava sem perder o estilo.

Trivial chiquérrimo

IMG_20140303_164205

pinot narbonaEmpanadas são tão uruguaias quanto chilenas ou argentinas. Pouca gente por aqui talvez saiba disso, mas as empanadas uruguaias são tão boas quanto as de seus vizinhos. Normalmente, são recheadas de carne, frango ou queijo. Mas a empanada da foto é especial, feita de alho-poró e panceta. Divina. Foi a entrada que nos serviram no  lindo (e caro) restaurante da Bodega Narbona perto de Punta del Este. Conheci Valéria Chiola, a enóloga da Narbona, e seu delicioso pinot noir na Expovinis do ano passado. (Expovinis, para quem não sabe, é uma feira gigante de vinhos que acontece todos os anos em São Paulo.) Fiquei surpresa de encontrar um pinot uruguaio tão elegante e tive vontade de conhecer a bodega. Na região de Punta, eles têm  uns vinhedos de uvas brancas e um restaurante delicioso. A vinícola mesmo fica em Carmelo, perto de Colonia del Sacramento, já lá embaixo, na fronteira com a Argentina. Fui nos dois, no restaurante e na bodega, onde descobri que a região de Colonia, que tem um solo calcário semelhante ao da Borgonha, é fantástica para a pinot noir e fiz uma nova degustação com Valéria. Gostei de todos os vinhos, mas o pinot continua sendo o meu favorito. Com a empanada de alho-poró ele é perfeito. Ambos conseguem ser delicados e marcantes ao mesmo tempo. 

Carnívoros acima de tudo

pisano

tannat pisano rpfUruguaios, como a maior parte dos povos do Sul,  são antes de tudo amantes de um bom churrasco. Carne grelhada é o prato nacional. Têm orgulho em dizer que, à diferença dos hermanos do outro lado do Rio da Prata, sua parrilla não é feita com carvão e, sim, com lenha. Isso faz toda diferença no aroma e no sabor da carne. O prato ao lado nos foi servido em um almoço na casa da família Pisano, proprietários da Pisano Artesania en Vinos Finos, em Progreso, na região de Canelones, muito próximo a Montevidéu. Sinto informar que os Pisano não têm um projeto de turismo. Recebem visitas apenas de negociantes, jornalistas e gente do mundo do vinho. Uma pena, a carne que me serviram foi a melhor que comi no Uruguai. Eles não têm um restaurante, mas a parrilla esteve a cargo do chef Gérman Pisano, que trabalhou no restaurante Eñe em São Paulo. Gérman é filho de Eduardo Pisano, um dos três irmãos que tocam a bodega. Usou lenha de vinhas velhas plantadas por seu bisavô. Acompanhando a carne, veio uma salada de tomate com manjericão e cebolinha, tudo da horta da casa. Sem palavras… Experimentamos uns dez vinhos da família. Todos muito bons. Gostei especialmente do Pisano RPF Tannat, um vinho escuro, denso, com aroma de frutas escuras e especiarias, que conserva toques florais e, na boca, é super fresco sem deixar de ser macio. Mais do que os outros, arredondou o sabor da carne.

Cortes nobres

cordeiro bouza2014-03-12-bouzacorteDistante apenas uns poucos quilômetros do centro de Montevidéu, a Bouza Bodega Boutique é um passeio delicioso mesmo para quem está na cidade a negócios. Eles têm um lindo parque, vinhedos onde o turista pode provar uvas viníferas em tempos de colheita e um ótimo restaurante, com uma das grelhas mais profissionais que conheci na vida. Conseguiram até fazer um filé para meu amigo alto , bem passado, e ao mesmo tempo suculento e macio. Uma das especialidades da casa é o carré de cordeiro. Para acompanhá-lo em grande estilo, nada melhor que o vinho top da bodega, corte de tannat, merlot e tempranillo: Monte Vide Eu (palavras ditas pelo português que descobriu a cidade). Um vinho escuro, cheio de aromas que vão surgindo enquanto a taça descansa na mesa. Encorpado mas macio, encara o cordeiro com maestria.

Tudo no mesmo tom

IMG_20140301_010739Chegamos a Colonia del Sacramento no fim da tarde e corremos para ver o pôr-do-sol no Rio da Prata. Nosso único critério para escolher um bar foi que ele tivesse vista para o rio e fosse totalmente voltado para o oeste. Demos sorte, a Parrilla Santa Rita é um bom ponto para quem quer descobrir vinhos uruguaios pouco comuns. Felipe, o simpático e falante garçom, nos indicou o Pinot Viejo 2002, da Los Cerros de San Juan, uma bodega histórica que começou a produzir vinhos finos em 1854. O vinho de 12 anos estava perfeito. A cor era maravilhosa, de um rubi translúcido que combinava perfeitamente com a luz que ia se formando no horizonte, com o sol se pondo atrás do distante skyline de Buenos Aires. Achei que a idade tinha acrescentado aromas animais e terrosos ao vinho, sem levar embora as frutas e, surpresa, nem o floral. Depois, descobri que ao vinho de 2002 foi acrescentado um pouco de pinot noir 2012. Isso explica a fruta e a flor no nariz e a ótima acidez na boca. Para acompanhá-lo pedimos algumas tapas espanholas. O prato de gambas al ajillo, também carmim, foi o que fez mais sucesso. A combinação ficou ótima, provando que esse pinot é um velhinho bastante sarado. Não é qualquer vinho que enfrenta o molho picante e carregado no alho desse petisco típico da Espanha.

Um rótulo atípico para um prato típico

matambrito

carrauMatambrito de cerdo é um de meus pratos preferidos sempre que vou à Argentina. Fiquei feliz de ver que no Uruguai esse corte, que corresponde à capa de costela do porco, também é muito popular. Em Colonia, no restaurante Marlo, comi um sensacional, com pouca gordura, bastante carne, suculento. As carnes brancas do porco, como é o caso do matambrito, vão bem com branco ou tinto. Se for tinto, o vinho precisa ter ótima acidez para cortar a gordura e um corpo médio para não esconder a delicadeza do sabor da carne. Poucos tannats são delicados, o Tannat de Reserva da vinos Finos Carrau é e muito. Se eu não visse o rótulo, talvez achasse que estava diante de um pinot noir ou, no máximo, de um tempranillo já um tanto evoluído. Começa pela cor: ele é de um vermelho granada, translúcido e, não escuro como em geral são os tannats. O perfil aromático também é único: tem frutas vermelhas (e não negras), flores, algo de couro. Na boca, tem taninos, mas bem menos do que se espera. Gostei bastante, mas é bem pouco típico. Ou, pelo menos, a garrafa de 2011 que tomei estava bem pouco típica.

O lado italiano do Uruguai

vina progresso sangioveseColonizados pelos espanhóis, os uruguaios, assim como nós e os argentinos, receberam um grande número de imigrantes italianos. A herança é visível na expansividade do povo e em muitos dos costumes da mesa local. As milanesas, por exemplo, se tornaram uma tradição. Poucos restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, não têm um bife à milanesa no cardápio. Para um prato italiano, uma cepa italiana: vamos de Viña Progreso Sangiovese. Projeto particular do jovem Gabriel Pisano, a Viña Progreso tem produzido vinhos deliciosos. Este sangiovese é escuro, mas translúcido. No nariz, tem frutas negras, café. Na boca é super redondo, mas tem a acidez necessária para contrabalançar a gordura de um bom milanesa.

Os bravos também amam os bons vinhos

montevideu_porto cuna de piedra tannatParrillada, esse é o nome do prato mais típico do Uruguai. Confesso que não tive coragem de comer. Além de diferentes cortes de vaca, porco e cordeiro, leva vegetais e tudo quanto é parte interna dos bichos. Varia de restaurante para restaurante. Mas pode ter moela, miúdos, rins, etc. Como o prato reúne muitos alimentos de diferentes sabores e texturas, a harmonização só pode ser feita pelo critério regional. E o mais uruguaio de todos os vinhos ainda é o tannat. O Cuna de Piedra, da Los Cerros de San Juan, costuma ter um ótimo preço nas cartas de todo o país. É um vinho escuro, com frutas negras e algo de floral no nariz, que terá 92 pontos no primeiro Guia Descorchados a incluir vinhos uruguaios.

Roots total

chivito 1 don pascual brut blanc de noirDesde que cheguei ao Uruguai, fiquei com vontade de comer o tal do chivito, uma espécie de X-tudo de filezinho. Mas fui adiando porque sempre queria experimentar bons restaurantes. No penúltimo dia, já em Rivera, a cidade uruguaia que fica do outro lado da praça principal de Santana do Livramento, resolvi atacar. Entrei no El Borrego, um restaurante/café na avenida dos duty frees,  e pedi  um chivito. O sanduíche gigante, além de carne, ovo, queijo, presunto e salada, leva pimentões em conserva, azeitonas verdes e bacon, muito bacon. Uma melequeira deliciosa. Comi esse chivito com Coca-Cola, uma harmonização perfeita. A Cláudia comeu o dela (de frango) acompanhado da cerveja uruguaia Patrícia. Segundo ela, ótimo. No dia seguinte, antes de partir para Porto Alegre, resolvi testar o chivito com um vinho bem simples para ver se rolava. No próprio El Borrego, havia garrafinhas de 187 ml do Don Pascual Brut Blanc de Noir. Apesar do nome, não se trata de um espumante e nem de um vinho branco, é um rosé. Já havíamos tomado em Montevidéu. Um vinho honesto, bem seco e bem fresco, sem muita intensidade de aromas, mas com ótima acidez. Funcionou em contraposição à gordura do sanduíche, que é cheio de maionese.

Doce ao quadrado

licor com sorvete

licor tannat pisanoHarmonizar um vinho uruguaio com os doces uruguaios me parecia impossível até que descobri que aquilo que eles chamam de licor de tannat é, na verdade, um vinho fortificado. Bastante doce, aguenta até o delicioso dulce de leche daquelas paragens. No almoço na casa dos Pisano, eles nos serviram sorvete de creme com doce de abóbora e doce de figo acompanhado do licor de tannat Etxo Oneko. Combina técnicas de vinificação do vinho do Porto, do Recioto e do Amarone. Cheio de especiarias, frutas escuras e algo meio selvagem no nariz, o vinho transformou aquela sobremesa tão cotidiana em algo bastante sofisticado.Tem muitos taninos e talvez menos açúcar que o doce de figo, por exemplo, nem por isso, senti qualquer amargor na boca.

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3 pensamentos sobre “estrada do sul: 12 vinhos e pratos uruguaios para apetites vorazes

  1. É impressionante mesmo como estão sendo produzidos ótimos vinhos no Uruguai, e não só de Tannat. Os brancos, especialmente os Sauvignon Blanc e os Gewurtztraminer, e os Pinot Noir me impressionaram pela elegância e pelo frescor. No geral me agradou muito o estilo elegante dos vinhos uruguaios, inclusive dos Tannat, com taninos muito bem resolvidos.

  2. Pingback: Carta de vinhos: Vá de branco no verão Uruguaio - Helena Bordon

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