O homem que desafiou os grandes châteaux

retratoNos anos 90, na garagem da sua casa, em Saint-Émillion, Bordeaux, , o argelino Jean-Luc Thunevin fez um vinho tão bom ou melhor do que os produzidos pelos grandes châteaux da tradicional região vinícola francesa. Esse vinho, o Château Valandraud, chamou atenção do crítico americano Robert Parker, que atribuiu 93 pontos à safra 1993, a melhor nota entre todos os vinhos de Bordeaux naquele ano. O jornal japonês Brutus fez, então, um artigo falando das qualidades daquele vinho feito na garagem de um maluco, e o Chãteau Valandraud virou ícone no Japão, elevando o preço da garrafa de 20 para 1,5 mil euros — mais que um Château Petrus ou um Romanée-Conti na época. Com o tempo, a febre baixou e os preços caíram, mas permaneceram na faixa dos grandes de Bordeaux. Hoje uma garrafa de Châteaux Valandraud custa cerca de 400 euros na França e 1,8 mil reais no Brasil. O reconhecimento oficial, no entanto, só veio em 2012, quando uma comissão nomeada pelo Comitê Nacional de Apelações de Origem da França alçou o Château Valandraud de Saint-Émillion Grand Cru a 1er Grand Cru Classé B, pulando uma escala na classificação da região e deixando-o a apenas um degrau do topo de St-Émillion (Grand Cru Classé A), onde só estão quatro grandes châteaux: Cheval Blanc, Ausone, Angélus e Pavie.

Jean-Luc Thunevin, o homem que criou o movimento garagista na França, apelidado pelo crítico americano Robert Parker de o Bad Boy de Bordeaux, está no Brasil para uma série de jantares e degustações. Na segunda-feira, esteve em Belo Horizonte comandando um exclusivíssimo jantar no restaurante Trindade, no qual foram servidas oito safras do Château Valandraud, seu vinho top.  Ontem, participou de um jantar no Rio de Janeiro, no restaurante La Bottega del Vino, Leblon, no qual os pratos foram harmonizados com seis rótulos de diferentes linhas de sua vinícola. Hoje, às 20h, dará uma aula sobre Bordeaux na Associação Brasileira de Sommeliers em São Paulo. Na quinta, tem um encontro informal com o público no Bardega e, sexta, faz um jantar no restaurante da importadora Casa do Porto, ambos em São Paulo. No ano passado, quando ele esteve em São Paulo, conversamos por longas horas tomando o seu vinho Bad Boy, uma homenagem a Robert Parker. E, no início deste ano, trocamos alguns e-mails. O conjunto dessas conversas resultou na entrevista a seguir:

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A sua vida mudou  muito depois de o Château Valandraud ser classificado como 1er  grand cru classé?

A nova classificaçao tem ajudado os nossos distribuidores a vender mais, mas já tínhamos uma praça privilegiada. No Japão, há muitos anos, o Château Valandraud é chamado de “o vinho Cinderela” (um vinho feito quase sem recursos financeiros que atingiu um enorme sucesso). Hoje esse apelido faz ainda mais sentido: de vinho de garagem passamos a 1er Grand Cru Classé. Não sou príncipe, mas já não sou sapo. No entanto, o que mais mudou foi o apoio dos bancos agora que o valor do château se multiplicou.

Ouvi dizer que desde que o Château Valandraud virou um 1er grand cru classé, algumas celebridades entraram em contato com o château para produzir vinhos com seus nomes. Quais?

Fizemos um projeto para um artista internacional, reconhecido como o maior e o mais talentoso no que faz, mas a estratégia do lançamento não me autoriza ainda a falar quem é. Além disso, fui convidado para ser consultor do vinho que Ridley Scott produz no Luberon, na Provence. Infelizmente, o vinhedo está numa situação complicada que não permite fazer o grande vinho que ele sonha. Ele teria de renovar o vinhedo e esperar 10 anos antes de conseguir uma colheita capaz de produzir um grande vinho.

 O senhor já provou o vinho do Brad Pitt e da Angelina Jolie, o “Miraval Côtes de Provence”?

Ainda não tive a oportunidade de provar o vinho, a garrafa é muito bonita, e já é um successo comercial. A qualidade do vinho é quase um detalhe. Se fosse um grande vinho, a crítica mundial já teria comentado. As críticas que vejo são mais para falar sobre eles dois do que do vinho em si. O que posso dizer é que este casal há muito tempo queria comprar uma casa neste belo canto da França e que, além do glamour de possuir uma terra com vinhas, eles fizeram um ótimo investimento, pois essa propriedade ainda deve render muito dinheiro. Os impostos para uma casa de campo são bem mais altos do que os cobrados sobre uma propriedade produtiva. Parece até que eles realmente amam o vinho, o que não quer dizer que produzirão algo especial um dia. Ñenhum dos vinhos feitos por celebridades que já provei, com exceção do vinho do diretor de cinema Francis Ford Coppola, realmente me empolgou. Mesmo Gerard Depardieu, que é um amante do vinho, produzia um vinho bastante mediocre até contratar a consultoria de Bernard Magrez, proprietário do Chatêau Pape Clément, em Graves, Bordeaux. Hoje, tenho de admitir, a propriedade de Depardieu, o Chatêau de Tigné, produz vinhos bastante corretos.

Celebridades à parte, existe vinho francês bom e barato?

Claro, há um monte de pequenas produções locais de vinhos ótimos. Bordeaux mesmo é uma região que tem vários vinhos muito bons a preços atraentes. Quando se pensa em Bordeaux, se pensa em grandes nomes como Château Pétrus, Château Lafite-Rothschild e Château Mouton-Rothschild. Esses vinhos representam apenas uma mínima parcela do que é produzido na região. Em geral, a produção de Bordeaux tem uma qualidade excepcional para o seu preço. Por exemplo, o Château Lafont Fourcat, em Entre-Deux-Mers, sub-região de Bordeaux, onde o preço da terra é baixo: um vinho delicioso, sensual, que custa 7 euros. Outra área que produz magníficos vinhos a preços ainda mais baixos é o Roussillon, no Sul da França, onde as condições climáticas são perfeitas para a produção de vinhos de alta qualidade.

O que faz um vinho ser tão mais caro que outro?

Em primeiro lugar, o preço por hectare da terra onde ele é produzido. Em Pauillac (sub-região da margem esquerda de Bordeaux) o preço do hectare é 2 a 3 milhões de euros, enquanto no Roussillon o hectare custa 20 mil euros. O valor da terra, por sua vez, é determinado pela reputação de seus vinhos. O custo de produção também varia muito. No Roussillon, por exemplo, o vento que vem do Mediterrâneo seca naturalmente as vinhas, mantendo-as saudáveis sem ser necessário o uso de produtos químicos caros. Além de tudo isso, há a relação entre oferta e procura, uma questão puramente de mercado. O Carruades de Lafite, segundo vinho do Chatêau Lafite-Rothschild, por exemplo, era vendido a 30 ou 40 euros alguns anos atrás, mas os chineses começaram a comprar esse vinho em grandes quantidades, seu prestígio aumentou e, logo, o preço subiu: hoje custa 300 euros. É completamente ilógico já que estamos falando de um segundo vinho vendido ao mesmo preço de um Chatêau Angelus ou um Chatêau Pavie, que estão entre os melhores vinhos de Bordeaux.

Só na Europa é possível se produzir grandes vinhos?

As pessoas acham que consegui fazer um grande vinho porque estou em Bordeaux, mas, se eu vivesse no Brasil, também iria querer fazer o melhor vinho do mundo.  Não só no Brasil, na maior parte dos países do mundo.  Iria conseguir? Acho que sim. Iria pelo menos tentar. Os inconvenientes, a falta de adaptação ao terroir (condições de solo e clima), para mim não são impedimentos, são vantagens, oportunidades de inovar. O principal problema dos vinhos do Novo Mundo, a meu ver, é a mentalidade dos vitivinicultores: a maioria tem uma visão muito de business, querem fazer muito para ganhar muito. Poucos pensam no vinho como alta-costura, algo que merece atenção aos mínimos detalhes.Fazer grandes vinhos em grandes quantidades é difícil mesmo.

A noção de que é preciso um terroir especial para produzir grandes vinhos era um mito? Dá para produzir vinho em qualquer lugar?

O conceito de terroir é romântico, tendemos a acreditar que terroir é o mesmo que terra, associamos a ideia quase exclusivamente ao solo, enquanto o clima é parte essencial do terroir. Mesmo em Bordeaux, quando o clima não ajuda, produzimos vinhos mediocres.  E o clima está mudando. Mas isso não me preocupa porque Bordeaux por muito tempo será sinônimo de grandes vinhos. Quem compra um Bordeaux compra também história, arte de viver. Claro, com o passar dos séculos pode mudar. Uma civilização sempre come a outra. Primeiro, os grandes produtores de vinho eram os Egípcios, depois os gregos, depois os romanos, agora a França… No futuro, quem sabe, será a China.

Hoje o senhor pensa em produzir vinho em algum lugar fora da França?

Gostaria de fazer um vinho no Chile, pela geografia: com os Andes de um lado e o Pacífico de outro, os vinhedos chilenos estão isolados das pragas. Mas não dou conta nem da França. Por enquanto, não quero me envolver em nenhuma operação no exterior. Do jeito que gosto de trabalhar o vinho, não dá para fazer algo tão longe.  Não me interessa só pôr o nome na garrafa.

O que há de especial no seu jeito de trabalhar?

Transporto as uvas em pequenas caixas, cuido para que elas cheguem do campo à vinícola no menor espaço de tempo, faço vinificações em tanques menores. Faço poda verde, corto folhas da videira para deixar o sol chegar até a uva, e raleio, ou seja, elimino alguns cachos de cada pé para que os que ficam cresçam mais saudáveis.  Na verdade, isso tudo hoje é prática comum entre as boas casas de Bordeaux.  Na época em que começamos, quase ninguém fazia isso. O Angélus, o Le Bom Pasteur e o Petrus aplicavam essas práticas em pequenas parcelas de seus vinhedos, só como experiência. Como meu vinhedo era minúsculo, 1,5 acres, eu fiz em tudo logo de uma vez. Um produtor famoso andou dizendo por aí que eu teria inventado toda essa história de movimento garagista como uma estratégica de marketing super eficiente, como se eu tivesse escolhido começar a produzir meu vinho em uma pequena garagem porque isso era mais charmoso. Eu não escolhi nada, foi tudo por acaso. Foi sorte, a falta de dinheiro me ajudou a fazer um grande vinho. Como não tinha dinheiro, tive de fazer tudo de forma artesanal. Hoje todo mundo despertou, percebeu os erros que cometia e hoje faz o que eu fazia na época, até os grandes châteaux. Os defeitos que se encontrava antes em boa parte dos Bordeaux, inclusive nos ícones, hoje você não encontra mais.

Quais eram esses defeitos?

Havia três grandes defeitos. Primeiro, os grandes rendimentos, os agricultores do pós-guerra queriam produzir muita uva. Em vez de 5 toneladas de uva por hectare, produziam 10. Quando se produz demais, a uva fica aguada, os frutos não têm o mesmo gosto. O segundo problema era o barril, os produtores não podiam pagar barricas novas. Terceiro, o clima na época era um pouco mais úmido, portanto, os produtores acabavam colhendo as uvas muito cedo, ainda um pouco verdes, para evitar o apodrecimento, e quando as uvas não estão maduras, o vinho ficam com um aroma herbáceo desagradável.

Quer dizer que, daqui a 20 anos, a safra 2005 dos grandes châteaux vai estar muito melhor do que a safra 1985 está hoje?

Tenho certeza. Não sou o único a falar isso. Os meus amigos, os famosos enólogos Michel Rolland e Émile Peynaud, já disseram isso. Esses châteaux agora usam menos produtos químicos, as caves estão se tornando mais limpas, tudo é controlado. Por isso, nunca houve vinhos tão bom antes.

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