10 bons motivos para você largar mão do preconceito contra os vinhos brancos

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Grandes brancos, assim como grandes tintos, refletem as características das regiões onde são produzidos                                      foto Jenny Downing

Um dia, depois de tomar um Carmenère Santa Carolina Reservado, um amigo meu observou: “Para mim, vinho mesmo é vinho tinto!”. “Isso é preconceito”, respondi.  Ele insistiu, seguiu argumentando e, finalmente, soltou: “Os grandes vinhos são tintos”. Eu podia ter ficado calada — e seguido a máxima que outro amigo costuma postar no Facebook, “é melhor ter educação a ter razão”. Mas, bocuda que sou, soltei de volta: “Você nunca tomou um grande vinho”.  Afinal, um sujeito que, apesar de ter dinheiro e cultura, escolhe tomar um Santa Carolina Reservado (como todos os reservados chilenos, um vinho muito simples, para não dizer bem meia-boca) não pode falar em grandes vinhos. Tudo bem, ninguém é obrigado a entender de vinho e qualquer um tem direito de preferir vinho tinto a vinho branco. O que me incomoda é o fato de as pessoas tratarem vinho branco como se fosse um produto de segunda categoria. Não é! Existem, sim, grandes vinhos brancos, tanto que em regiões como a Borgonha, na França, ou o Reno, na Alemanha, alguns custam milhares de dólares (veja o slideshow De onde vêm os grandes vinhos brancos?).

Sei que, provavelmente, você pensa como meu amigo. A maioria dos brasileiros pensa. Os homens acham vergonhoso tomar vinho branco. Consideram que isso é coisa de quem não entende nada de vinho, “coisa de mulher” — que, é claro, “gosta de vinho docinho”. As mulheres, indignadas de serem alvo de tamanha discriminação, nem pensam em circular com uma taça de branco na mão. E, em geral, quando alguém compra vinho branco, compra qualquer porcaria, só para servir para as moças (leia-se para a tia de idade que, de fato, gosta de vinho doce e não está nem aí para o que pensam dela). Com isso, o público médio de vinhos finos acaba tendo uma imagem cada vez pior da categoria. Não vou propor que você gaste milhares de dólares para se convencer de que há grandes vinhos brancos no mundo. Sugiro apenas que, ao menos de vez em quando, experimente um branco de bom padrão. Em vez de gastar com restaurante, compre uma garrafa um pouco mais cara e faça uma comida em casa. Afinal, se você chegou até aqui na leitura deste post é porque tem algum espírito aventureiro. A seguir, doze vinhos brancos secos, que mostram por que vale a pena não ficar restrito aos tintos:

 1- Porque nada acompanha tão bem um prato de peixe ou frutos-do-mar 

IMG_20140318_162620Amo os vinhos da região do Vinho Verde, no Norte de Portugal. Uma região de brancos incríveis, cuja grande estrela é a casta alvarinho. São brancos elegantes, frescos, cheios de aromas cítricos e minerais. Deliciosos para tomar puros, ficam ainda melhores se acompanhados de pratos não muito rebuscados de peixes e frutos-do-mar. Para comer com peixe, aliás, o branco costuma ser a melhor pedida. O tinto, além de muitas vezes passar como um trator sobre o sabor delicado do peixe, quando encontra com este na boca muitas vezes metaliza, ou seja, a gente tem a impressão de que a obturação de amalgama soltou. Com ótima acidez, os alvarinhos são ótimos também para cortar a gordura das frituras. Repetindo o que falo sempre: do acidez vinho funciona como o limão que jogamos sobre o bolinho de bacalhau, por exemplo. Faz ele descer mais fácil. Este, que foi tomado na beira da piscina em uma casa deliciosa no interior de São Paulo, é muito delicado, com aromas agradáveis de fruta cítrica, pêssego, flor branca e algo de mineral. Na boca tinha corpo leve. Os alvarinhos costumam não ser muito baratos, mas este está por um ótimo preço: R$ 66, na Adega Alentejana.

2 – Porque brancos também podem melhorar com os anos

IMG_20140318_162412Grandes vinhos, em geral, têm  história. O prazer de tomá-los vai além dos aromas e do paladar. Um gole nos remete a um determinado lugar e a um determinado tempo. Nisso, os vinhos da espanhola Viña Tondonia, na Rioja, são quase insuperáveis. Eles são um monumento histórico, uma viagem no tempo. Conservam um método de produção hoje praticamente extinto. Ainda são feitos como os riojas do fim do século XIX, quando muitos franceses chegaram por lá fugidos da filoxera (uma mosquinha que ataca a raiz da vinha), que havia dizimado os vinhedos de Bordeaux. Envelhecem anos em carvalho. O branco gran reserva da bodega fica oito anos na madeira e oito anos na garrafa antes de ser lançado no mercado. E mesmo o mais simples, o Viña Gravonia, um viúra que passa quatro anos no carvalho. Durante esse estágio na madeira, há uma micro-oxigenação constante. Essa oxidação lenta e constante desenvolve aromas muito agradáveis e protege o vinho contra os efeitos negativos do tempo. São vinhos feitos para guardar, para durar muitos anos. Não são os únicos brancos de guarda, grandes Borgonhas duram décadas. Mas estão entre os de melhor preço com essa característica, especialmente o Viña Gravonia. A garrafa da foto, da safra 2001, presente de uma amiga, tomei nas férias de Reveillon deste ano em Ubatuba em uma noite deliciosa entre amigos. Pelo tom dourado, dava para perceber a idade do vinho. No nariz um delicioso oxidado se misturava com aromas mais jovens, como o frutado. Na boca, ainda estava bastante fresco. Quem traz para o Brasil é a Vinci. A safra 2003 está por R$ 158.

 3- Porque não deixam nada a desejar em termos de complexidade de aromas

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Uma das características que definem um grande vinho é a complexidade de aromas. Se o vinho é simples, quando você leva a taça ao nariz, em geral, sente só aromas frutados. Vinhos mais complexos apresentam outras famílias aromáticas, como os aromas florais, minerais, de panificação. Particularmente, eu adoro ficar cheirando o vinho. Em especial quando os aromas não se revelam todos de uma só vez. Vão surgindo aos pouquinhos. É o caso deste South Australia Viogner The Y Series,da Yalumba, uma das poucas grandes vinícolas australianas que permanecem familiares. Apesar de ser o viogner mais barato da vinícola, que é especializada nesta casta, este rótulo da região de Barossa Valey, já apresenta uma boa complexidade. Tem algo de mel, flores brancas, pêssego, maçã verde e aquele mineral que, por incrível que pareça, deixa tudo mais elegante, o que se chama de pedra de isqueiro. O fato de ele ter sido fermentado com leveduras selvagens explica um tanto dessa complexidade. Na boca, ele é uma delícia. Tem corpo médio e desde bastante redondo. Basta tomá-lo para saber que a Austrália não produz apenas grandes tintos. Tomei em Ubatuba,  praticamente sozinha. Minha irmã bebeu apenas uns goles. Fui tomando aos poucos durante a semana que passamos em Itamambuca em fevereiro. Para isso, nada melhor do que uma garrafa com tampa de rosca, como é o caso desta. A tampa de rosca (screwcap) também faz o vinho durar mais. Com 7 anos de idade, ele ainda tinha um tom claro, palha, e todo o frescor de um branco jovem. Importado pela KKM, custa R$ 98.

 4- Porque eles expressam o terroir como poucos tintos

IMG_20140318_161855Em 2011, passei umas férias em Santorini, na Grécia. Poucas horas depois de chegar a essa ilha, que na verdade é a borda de um vulcão extinto, reparei numa vegetação rasteira que se espalhava por todos os cantos. Em meio à paisagem árida, o verde dessas plantas rasteiras chamava a atenção. Alguns dias depois, descobri que se tratavam de vinhas. O clima é tão seco e tão isolado do continente que não há risco de pragas. À diferença do que acontece em todo o resto do mundo, a uva pode ficar em contato com o solo sem nenhum problema. Santorini é a ilha grega de cartão postal, com suas casas brancas e azuis encravadas em escarpas rochosas. Algo em sua secura me pareceu tocante e harmonioso. Exatamente como os vinhos de assyrtiko, uma casta local pela qual me apaixonei. Têm um perfil que costumo gostar: secos, com aromas elegantes e uma acidez os mantêm jovens por anos. Este Sigalas Santorini 2009 é um dos melhores dessa apelação controlada. Muito delicado, ele pede um peixe na brasa como tantos que comi naqueles dias em pequenos restaurantes com vista para o Mediterrâneo. Trazido pela Decanter, sai por R$ 165.

 5- Porque neles é mais fácil perceber os aromas minerais

IMG_20140318_163538Outro dia um produtor me contou sobre um especialista que, ao degustar um vinho, sabe dizer em que tipo de solo a uva foi plantada. “Este é xisto, aquele granito, aquele outro argilo-calcário”, diz depois de umas fungadas e um gole.  Eu estou muito longe de ter essa habilidade, mas sou daquelas que acredita nos aromas minerais. É uma questão polêmica. Tem gente da área, bastante renomada, que acha que isso é uma lenda, que é impossível cheirar xisto ou granito, mesmo porque xisto e granito não teriam cheiro de nada. Eu acho que pedra tem cheiro. Ou pelo menos, abriga alguns elementos com cheiros. E, principalmente nos brancos, identifico um aroma que aprendi a chamar de mineral. É algo que os torna um pouco mais austéros, com confere elegância. Tem um aroma mineral cuja existência duvido que alguém conteste. É o tal do petrolado, algo parecido com cheiro de petróleo. Um leve, muito leve, cheiro de plástico novo que, por mais estranho que pareça, torna os brancos deliciosos. Os rieslings são campeões de petrolato. Neste Alsace Riesling Leimenthal, 2005, do Domaine Barmès Buecher, é evidente. Mas, apesar da idade, este vinho ainda tem frutas cítricas, pêssego e floral no nariz, além de amêndoas, avelãs e pão tostado. Muito bom. Na Casa Flora, custa R$ 148.

6-Porque muitos têm uma intensidade aromática invejável

IMG_20140318_163414Tintos são chamados de vinhos potentes. De fato, os taninos e o material corante fazem com que eles sejam bem mais denso, preencham a boca. Quando se trata de preencher o nariz, no entanto, as brancas são bem mais potentes. Se você gosta de vinhos bastante aromáticos, vai se dar bem com aqueles feitos de sauvignon blanc. Especialmente no Novo Mundo, essa casta de origem bordalesa costuma produzir explosões de aromas. Trabalhada por um bom produtor, como é o caso de Kevin Judd, autor deste Greywacke  Sauvignon Blanc, da região de Marlborough, a casta mantém uma boa intensidade aromática e ganha em sutileza. Esta garrafa, da safra 2010, tomei com meu pai, que nem sabe que as novas gerações têm preconceito contra vinhos brancos e adora a sauvignon blanc. Também dotado de tampa de rosca, ainda tem cor de vinho muito jovem: amarelo-palha com reflexos esverdeados. No nariz, me chamou a atenção o aroma de ervas. Na minha opinião, tomilho. Há algo também de cítrico, um leve floral e pimenta vermelha. Importado pela Casa Flora, custa R$ 169.

7- Porque podem ser tão redondos quanto os tintos

IMG_20140318_161811Se o Brasil fosse obedecer a maior vocação de seus terroirs, produziria cada vez mais brancos. O clima úmido com chuvas de verão do sul do país, onde se concentram as principais regiões produtoras, é bem mais propício às variedades de colheita precoce. As uvas brancas, em geral, podem ser colhidas mais cedo, porque para fazer brancos secos importa mais manter o nível de acidez que esperar por um nível alto de açúcar. As piores chuvas tradicionalmente acontecem no fim do verão. Mas, como eu disse acima, pouca gente compra vinho branco bom, e os produtores nacionais acabam investindo mais nos espumantes (em geral brancos também) e nos vinhos tintos. A Cordilheira de Santana, na região da Campanha, é a única vinícola brasileira de que me lembro que tem como carro-chefe um vinho branco. O Cordilheira de Santana Chardonnay Reserva Especial tem tudo de bom. É equilibrado, redondo, tem aromas finos. Na viagem que fiz recentemente ao Uruguai, passei pela vinícola, um lugar lindo com um cerro ao fundo dos vinhedos, a poucos quilômetros de Santana do Livramento e da fronteira. Tomei o Chardonnay 2005 e constatei que o bicho continua inteiro, tão bom ou melhor do que quando o provei pela primeira vez há seis anos. No site da própria Cordilheira de Santana, a caixa de seis unidades sai por R$ 378 (R$ 63 cada).

8 -Porque podem ser frescos como só eles

IMG_20140318_180652A região da Borgonha é famosa tanto pelos seus brancos quanto pelos seus tintos. Os brancos de algumas denominações, como por exemplo Montrachet, são muito bem cotados. Seus grand crus são caríssimos. Quase sempre feitos de chardonnay, costumam ser encorpados e durar décadas. Chablis, a sub-região mais ao Norte da Borgonha, só produz brancos, também de chardonnay.  Mas o estilo do vinho é bem diferente. O chablis costuma ser um vinho mais pungente e frescos que os outros bourgogne brancos, com aquela acidez cítrica que faz com que a gente queira tomar uma segunda taça. E uma adorável mineralidade proveniente do solo formado por sedimentos de conchas (a região um dia já foi mar). Os preços aqui são um pouco mais baixos que na Côte d’Or, o que não quer dizer que um chablis seja um vinho barato. Os mais acessíveis são os petits chablis, vinhos simples e menos complexos, mas deliciosos de se tomar. O Alain Geoffroy Petit Chablis 2011 é exatamente isso. Tem aromas discretos de frutas cítricas, flores brancas e um suave toque mineral. Na boca, é muito leve e fresco. Importado pela Decanter, custa R$ 120.

9 – Porque há tantas castas brancas a explorar

IMG_20140318_162111Durante a vida inteira, a maioria das pessoas prova vinhos feitos a partir de pouquíssimas variedades de uva, meia dúzia de tintas e meia dúzia de brancas. É comum as pessoas se prenderem ao conhecido. Dos brancos, o cidadão comum de classe média alta em geral já experimentou um chardonnay, um sauvignon blanc, talvez um riesling, quem sabe um espanhol, como um viúra. Contudo, existem milhares de variedades de uva branca, centenas delas sendo vinificadas e produzindo vinhos varietais ou de cortes. Como alguém pode dizer que não gosta de vinho branco tendo provado apenas meia dúzia desses vinhos? O mundo do vinho é cheio de novas possibilidades. Se joga! O pior que pode acontecer é sobrar uma garrafa cheia para temperar o frango. Se está interessado em novas experiências, a Itália é o melhor lugar para onde olhar. É o país que mais tem uvas autóctones no mundo. Gostei muito deste Fantinel IGT Delle Venezie Ribolla Gialla 2012. Apesar de não ser uma casta muito conhecida, esse vinho da região de Friuli, perto de Veneza, segue o padrão de elegância dos brancos que mais me agradam: é elegante, fresco, tem aromas sutis, uma boa acidez e um corpo médio. Para completar, tem aquele leve toque de mineralidade. Importado pela Wine.com.br, custa R$ 90.

10- Porque há clássicos de padrão garantido

IMG_20140318_180744Os tintos e os vinhos de sobremesa de Bordeaux chamam tanta atenção que a gente esquece (ou nem sabe) que a famosa região francesa produz também brancos de bastante prestígio. Em geral feitos a partir de um blend das uvas sauvignon blanc e semillion, os bordeaux brancos já foram mais populares até que os tintos da região. No início do século XX, havia uma maioria de castas brancas entre os vinhedos. Podem levar a denominação genérica Bordeaux Blanc ou aparecer sob as AOPs Graves, Pessac-Léognan e Entre-Deux-Mers, por exemplo. Este Ronan by Clinet Bordeaux Blanc 2012 é um genérico, simples mas agradável. Ainda é bem claro, palha com reflexos esverdeados. Tem bastante aroma de flor. Para mim, ylang ylang (um cheiro que eu só conheço porque tenho o óleo essencial). Trazido para o Brasil pela Vinos e Vinos, sai por R$ 90.

 

 

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