Espumantes nacionais valem o brinde

IMG_20140221_022730Os espumantes brasileiros, especialmente os gaúchos, são na média bastante bons: frescos, equilibrados, com aromas agradáveis. Nem por isso eles são tão ou quase tão bons quanto os champanhes como deu a entender o inglês Steven Spurrier, crítico da revista Decanter (leia entrevista no post O vinho brasileiro me agrada mais que o chileno ou o argentino), durante o Panorama dos Espumantes do Hemisfério Sul, organizado pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) em São Paulo na semana passada. Spurrier, não sei se vocês lembram, é o responsável pelo Julgamento de Paris, uma degustação às cegas feita na França, em 1976, para comparar bordeaux e bourgognes com californianos. Um encontro histórico no qual, contra todas as expectativas, os americanos levaram a melhor.

O que se tentou fazer por aqui foi uma espécie de Julgamento de São Paulo, comparando espumantes brasileiros com espumantes da Argentina, do Chile, da Austrália, da Nova Zelândia e da África do Sul. Não deu muito certo. O evento ficou longe de provar qualquer coisa que nós já não soubéssemos: ou seja, que os espumantes brasileiros têm boa condição para competir no mercado internacional. Não convenceu ninguém de que  é melhor do que Austrália, Nova Zelândia ou África do Sul. E a liderança na América do Sul não é novidade.

A prova foi dividida em duas categorias: tradicional (segunda fermentação na garrafa) e charmat (segunda fermentação em grandes tanques de aço). O Brasil ganhou na primeira e ficou em segundo na segunda (ponto negativo, pois nos consideramos craques nessa tecnologia). No entanto, desde a prova, blogueiros e jornalistas especializados têm mostrado descrédito quanto à significância desses resultados. Para começar, a degustação não foi totalmente às cegas: os jurados sabiam de que país era cada vinho. Por falar em jurados, eles eram quase todos do Brasil. No Julgamento de Paris, a maior parte dos jurados eram franceses. Além de tudo, por aqui, o critério de escolha dos vinhos nacionais e estrangeiros não ficou claro para ninguém. Concordo com a maior parte do que tem sido dito.

Posto isso, volto a afirmar que o espumante braileiro é bom. As condições de clima e solo na Serra Gaúcha favorecem a produção de uvas com boa acidez, o que é ótimo para espumantes. Pode não ser perfeito, mas e daí? Eu, pelo menos, tomo espumante toda hora, de uma maneira ainda mais descompromissada do que bebo branco ou tinto. Quero bolhinhas e um cheirinho gostoso que me dêem alegria numa tarde de sol ou numa noite de balada. Algo que não amargue. Complexidade de aromas, cremosidade, persistência na boca e esse tipo de coisas são lucro: se tiver, melhor.

Há uma grande variedade de produtos nacionais no mercado. Alguns são muitos ruins, é claro; outros muito bons, dignos de nota, com aromas de panificação, bom ataque de boca e toda essa história; a maioria, no entanto, é simples e agradável. E o preço costuma ser um pouquinho melhor do que o dos equivalentes estrangeiros. Ou seja, ao ver, valem um brinde e, às vezes, até um porre. A seguir, dez espumantes (em ordem crescente de preço) que gosto de tomar:

Para quem não faz questão de impressionar 

saint germain

Muita gente toma vinho para se amostrar, deixar claro que tem grana e sofisticação.O Saint Germain Brut não é para essas pessoas.  A garrafa de 660ml custa cerca de R$ 14, o que equivale a uns R$ 16 pelos 750 ml da garrafa padrão. É um vinho nada complexo, mas fresco, com gostoso aroma de maça verde. É voltado para um segmento mais popular, mas eu compro para levar para praia, para abrir em casa no dia-a-dia, para fazer drinques. Na ficha técnica, a Vinícola Aurora não especifica com quais uvas ele é feito, apenas que são viníferas. O método de produção é o charmat, como na maioria dos rótulos mais baratos. Espumantes são resultado de duas fermentações. No caso dos charmat, a segunda (quando o gás carbônico gerado durante a transformação dos açúcares em álcool é aprisionado para se transformar nas famosas bolinhas) ocorre em enormes  tanques de pressão chamados autoclaves. Só um cuidado: por ser muito simples, este vinho não pode envelhecer nem  um ano. O ideal é bebê-lo assim que chega ao mercado.

Um clássico com preço popular

IMG_20140430_164700A qualidade do Casa Valduga Arte Tradicional Brut é incrível para o preço da garrafa: cerca de  R$ 33. Há muitos espumantes por aí, nacionais e estrangeiros, nessa faixa de preço. Mas bem poucos feitos pelo método tradicional. Deixar a segunda fermentação acontecer na garrafa requer uma mão-de-obra e tanto: é preciso fazer a tal remuage, quando as garrafas ficam viradas para baixo e são giradas manualmente todos os dias, garantindo que as leveduras se depositem no gargalo e possam ser retiradas. Esse cuidado artesanal não é uma garantia de maior qualidade, mas é uma boa dica. Vinhos feitos pelo método tradicional, o mesmo de Champagne, ficam mais tempo sur lie, ou seja, em contato com as borras das leveduras. Isso traz aromas complexos como nozes e pão torrado, que se agregam aos aromas de frutas e flores. Neste caso, o tempo sur lie foi de 12 meses como diz a medalha do rótulo.

Para tomar como aperitivo

aurora chardonnayA Aurora é a maior vinícola do Brasil,uma cooperativa de produtores de uva da Serra Gaúcha, com sede em Bento Gonçalves. Produz suco de uva, vinho de mesa e vinho fino a partir da colheita de mais de 1.100 famílias cooperadas. Gosto do trabalho deles. Acho que produzem vinhos bastante honestos, por um preço em geral bom. O Aurora Espumante Chardonnay Brut é feito pelo método charmat. Tem aromas cítrico, de maçã verde e uma leve baunilha decorrente da passagem por barris de carvalho. Tem boa acidez e ótima espumatização.  Serve muito bem ao que se propõe: ser bebido como aperitivo antes das refeições. Custa cerca de R$ 40.

Para acompanhar a comida

dal pizzolJá falei sobre a Vinícola Dal Pizzol no post Indo onde poucos vão e bebendo o que poucos bebem.  Contei sobre o belo parque que têm por lá, sobre a coleção de diferentes videiras e, principalmente, sobre como o estoque de vinhos antigos prova que a Dal Pizzol (e a região como um todo) é capaz de produzir vinho de guarda. Este Dal Pizzol Rosé Brut prova que eles também sabem criar vinhos jovens deliciosos. Feito de uma mescla de pinot noir com chardonnay pelo método charmat longo, tem aquele aroma de frutas vermelhas típico da pinot. Custando cerca de R$ 50, é uma boa pedida para acompanhar um jantar do início ao fim.

Para quem busca complexidade

IMG_20140430_171100Não sei se vocês lembram de um vinho de garrafão chamado Piagentini.A vinícola X Decima nasceu da Piagentini. Representa uma tendência bastante forte na Serra Gaúcha: vinícolas populares estão investindo em projetos  para produzir vinhos de grande qualidade. Uma das donas da vinícola foi minha colega no curso de sommelier em São Paulo. Então, tive várias vezes a oportunidade de conversar com o enólogo da Décima, o uruguaio Alejandro Cardozo. O cara entende muito de espumantes, sabe tudo de leveduras. Este X Decima Brut, de cerca de R$ 50, é um corte de Chardonnay e Viogner, um blanc de blancs. Como tal, tem no nariz muita fruta tropical. Mas o longo contato com leveduras encapsuladas faz com que, durante o período em que a bebida está na taça, surjam aromas de nozes, frutas cristalizadas e panificação . Tem frescor, mas já uma bebida de mais peso.

Quando o que importa é o terroir

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No Novo Mundo, poucos entendem de fato a noção de terroir. As pessoas ainda falam em terroir do Chile, terroir de Mendoza, terroir do Brasil. Isso não existe. Terroir é um conjunto de condições climáticas, geológicas, topográficas e culturais, que muda de um vizinho para o outro. Mario Geisse entende de terroir. O enólogo chileno  que veio para o Brasil em 1977 para implantar o projeto da Chandon em Garibaldi, andando pela Serra Gaúcha, reconheceu em Pinto Bandeira condições de solo e clima quase perfeitas para a plantação de uvas para espumantes. Nesse distrito, comprou uma parcela de terra com o terroir que buscava e começou a produzir grandes espumantes. Gosto de quase todos, mas, se tiver que escolher um para beber sempre, escolho o Cave Geisse Nature. O preço, cerca de R$ 69, é razoável. Feito pelo método tradicional a partir de um corte de chardonnay e pinot noir, além de ter complexidade de aromas, é muito elegante. Ser nature significa que não é acrescentado nenhum açúcar no final do processo como acontece com a maioria dos espumantes. Na boca, ele é direto, classudo, um vinho que você pode tomar aos montes sem enjoar.  

 Expressão da safra

mioloChampanhes e espumantes em geral não são safrados. Você não encontra o ano em que eles foram produzidos escrito no rótulo porque dentro da garrafa costuma haver vinhos de vários anos. Quando o espumante é safrado, isso quer dizer que naquele ano as uvas estavam especiais. Aos champanhes safrados, chamamos de vintage ou millésime. O MIllésime Brut D.O., da Miolo, só é produzido quando a safra é excepcionalmente boa. Um corte de Chardonnay e Pinot, passa no mínimo 18 meses sur lie. Tem aromas frescos, mas também de de panificação. Foi o vencedor da categoria método tradicional na degustação conduzida por Spurrier. Sai por cerca de R$ 69.

Para quem prefere os mais secos

IMG_20140501_162020 (2)É o meu caso. Como vocês podem reparar, não tem nenhum espumante demi-sec aqui na minha lista. Já cheguei naquele ponto em que estou começando a achar brut doce (veja aqui quanto de açúcar tem o brut, o nature, o demi-sec, etc.). Ser seco não quer dizer ser rascante. O Perini Nature chega ser cremoso, com um ótimo corpo e aromas amanteigados. Tem também frutas secas, pão tostado, essas coisas. A Perini é uma vinícola familiar razoavelmente grande de Farroupilha que produz suco, vinho de mesa (com a marca Jota Pe) e vinhos finos muito bons. Agora, eu soube, estão fazendo cervejas artesanais também.  O Nature custa cerca de R$ 75.

 Porque o inesperado pode ser muito bom

estrelasLembram da Estrelas do Brasil da qual falei no post Indo onde poucos vão e bebendo o que poucos bebem? Sociedade do uruguaio Alejandro Cardozo, de quem falamos acima, e do gaúcho Irineo Dall’Agnol. Ambos são enólogos, trabalham em outros lugares e usam seus tempos livres para produzir vinhos, em especial espumantes, que fogem de todas as regras, mas são ótimos. Em primeiro lugar, seus vinhedos são plantados em latada e não em espaldeira, como hoje se prega ser absolutamente necessário para produtos de qualidade. Este Estrelas do Brasil Nature Rosé é um corte de pinot noir, chardonnay, viogner e riesling itálico, uma variedade que costuma ficar de fora dos espumantes de mais qualidade. Passa 60 meses sobre as borras, é lacrado e depois continua envelhecendo na garrafa na vinícola. O que está à venda no momento é o 2007. Mesmo muitos produtores de champanhe têm certo medo de guardar seus produtos. Alejandro e Irineo não. Teoricamente, espumante não é vinho de guarda. Este, no entanto, estava tão bom que comprei uma garrafa mesmo sabendo que iria pagar excesso de bagagem. Tem aromas terceários, animal, couro, terroso, mas ainda sinto fruta e flor. Custa R$ 80.

Um charmat bem fora da curva

Cchandonomo disse antes, os espumantes feitos pelo método charmat costumam ser menos complexos. Essa regra, no entanto, nem sempre vale. O Cuvée Prestige Excellence Brut, da Chandon, está aí para provar isso. Não é o método em si que dá menos complexidade ao vinho e, sim, o giro rápido do produto que não permite um estágio mais longos sobre as lias. O custo de deixar um equipamento caro como uma autoclave parado por meses enquanto o espumante ganha complexidade é muito alto. Mas a Chandon se dá ao luxo de fazer isso na produção do Excellence. O resultado é fantástico. De cor dourada, tem aromas de pão torrado, nozes, frutas maduras. Na boca, é redondo, mas com muito boa espuma. Custa cerca de R$ 97.

 

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