“O vinho brasileiro me agrada mais que o chileno ou o argentino”

spurrierA frase acima, proferida pelo crítico inglês Steven Spurrier, com certeza, é bastante polêmica. Eu mesma não assinaria embaixo dela. Mas, se há uma coisa que Spurrier sempre foi é polêmico. Antes de ser crítico de vinhos da revista Decanter, nos anos 70, viveu em Paris, onde teve uma lojinha/escola de vinhos em sociedade com uma americana. Começou a prestar atenção na qualidade dos vinhos californianos quando ninguém tinha ouvido falar deles e, em 1976, em Paris, organizou uma degustação às cegas parar comparar os vinhos americanos com grandes de Bordeaux e da Borgonha. Reuniu um corpo  de jurados de peso, todos europeus, entre os quais estavam  Aubert de Villaine, o famoso proprietário do ainda mais famoso Romanée-Conti, na Borgonha, e Pierre Tari, dono do Château Giscours, em Margaux, e secretário-Geral da Assossiation des Grands Crus Classés. Os americanos ganharam tanto nos tintos quanto nos brancos. “Eu não esperava por isso”, disse Spurrier em uma entrevista concedida a .CRU durante sua passagem por São paulo, no fim de abril. “Se eles tivessem ficado entre os cinco melhores, eu já teria provado minha tese. Mas deu no que deu. Os vinhos californianos ficaram famosos e eu também.”

De fato, ele ficou bastante famoso. Sua história foi contada no livro O Julgamento de Paris, A Histórica Degustação que Revolucionou o Mundo do Vinho, de George M. Taber, o único representante da imprensa presente no dia da prova, e no filme Bottle Shock, de Randal Miller. No filme, o grande ator britânico Alan Rickmann interpreta Spurrier. “Quando fez o filme, Alan Rickmann tinha 63 anos”, reclama Spurrier. “Em 1976, eu tinha 34 anos”. Spurrier tem uma certa razão de se sentir mal que essa pequena troca.  Eu, como tinha visto o filme, estava esperando encontrar um homem de 100 anos para me dar entrevista. Spurrier está na flor dos seus 72 anos e é uma figura bem mais suave que o protagonista de Hollywood. Na verdade, é evidentemente tímido. Sem deixar de ser polêmico, é claro. No fim de abril, durante a Expovinis, Spurrier esteve em São Paulo para comandar o Panorama dos Espumantes do Hemisfério Sul, organizado pelo Ibravin. Um evento sobre o qual dei minha opinião (não totalmente positiva) no post Espumantes Nacionais Valem o Brinde. Conversamos por alguns minutos. A seguir, o resultado de nossa conversa:

 O senhor é conhecido entusiasta do vinho brasileiro. Por que?

Porque são vinhos equilibrados, elegantes, de estilo europeu. E não estou falando apenas dos espumantes. Esses, sem dúvida, são um ótimo cartão-de-visitas. Mas gosto muito também dos tintos e dos brancos. Na verdade, o vinho brasileiro me agrada mais que o chileno e o argentino. É mais parecido com o europeu. Acho que o Brasil tem tudo para ser a próxima bola da vez.

Mas não temos terroirs

Isso não é verdade de forma alguma. Na Serra Gaúcha, as famílias trabalham o terroir há três ou quatro gerações e sabem muito bem lidar com ele. Há uma tradição vinícola no Brasil. O clima, esse sim, não é muito favorável. Na maioria das regiões vinícolas do país, ele é muito úmido. Isso, no entanto, hoje pode ser corrigido com técnicas agrícolas corretas.

O senhor já esteve por lá?

Sim, em 2013, fiquei quatro dias na Serra visitando várias vinícolas. Além disso, sempre provo vinhos brasileiros nas feiras internacionais.

Acha que os espumantes brasileiros têm condições de competir com denominações tradicionais como Champagne (França), Cava (Espanha) e Prosecco (Itália)?

Acho. Se não acreditasse nisso, não estaria aqui.

Quando organizou o Julgamento de Paris, achava que os vinhos californianos iriam ganhar?

Acreditava na qualidade dos vinhos, mas não esperava por isso. Se eles tivessem ficado entre os cinco melhores, eu já teria provado minha tese. Mas deu no que deu. Os vinhos californianos ficaram famosos e eu também. Acontece que, nos anos 70, os californianos estavam dando tudo de si para chegar lá enquanto os franceses tinham deitado nos louros. Hoje é o contrário. Os californianos estão muito acomodados com seu sucesso.

É verdade que o senhor ameaçou processar os produtores do filme Bottle Shock?

Não foi bem assim. Eles fizeram o roteiro sem nem falar comigo e, depois, alguém me mandou o texto. Li. A história toda era completamente falsa. Para começar, Alan Rickmann tinha 63 anos quando fez o filme. Em 1976, eu tinha 34 anos. Eles nem sabiam que eu ainda estava vivo. E uma série de outras coisas. Não teve, por exemplo, aquele episódio do Château Montelena ficar marrom. Então, mandei o meu advogado conversar com eles para que algumas coisas fossem mudadas. E algumas coisas foram de fato mudadas. Mas, o principal é que eles escreveram que o filme é baseado em uma história real. Essa palavra ‘baseado’ era tudo que eu queria, que ficasse claro que aquela não era exatamente a minha história.

E do livro, o senhor gosta?

Muito. Vai sair agora um filme feito a partir do livro. Acho que será mais fiel à história verdadeira. Não deixe de ver.

Na sua casa, que vinho o senhor bebe?

Desculpe, mas prefiro beber vinho europeu quando estou em casa. Minha vida como crítico é experimentar vinhos novos do Novo Mundo. Quando estou em casa, bebo vinho europeu em 90% das vezes. Minha mulher cozinha muito bem e a gente sempre abre um vinho para acompanhar. Tenho muitos bordeaux, mas prefiro mesmo os bourgogne. Gosto também dos vinhos do Rhone. Da Itália, gosto dos toscanos. E, da Espanha, dos vinhos de Penedés e da Rioja.

O senhor disse que os brasileiros não precisam tomar champanhe porque têm ótimos espumantes. Nas suas horas vagas, o senhor toma champanhe?

Tomo muito como aperitivo. Raramente para acompanhar comida.

 

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