malbec e tannat: francesas de alma sul-americana

 

Pisano, Uruguai

Pisano, Uruguai

Logo no princípio deste blog, fiz um post sobre tintos de verão. Chegou a hora de falarmos de tintos de inverno. São muitos. Então, vamos por partes. Neste post trataremos apenas de malbecs e tannats, ótimos para noites frias. Sei que, a Copa do Mundo, não faltou brasileiro com raiva de tudo o que viesse da Argentina e que, por isso, muita gente ainda pode torcer o nariz para os vinhos malbecs. Tanto que quase desisti. Mas afinal a Argentina perdeu, não levou o caneco em solo brasileiro como muita gente temia e, pensando bem, embora os vinhos de Mendoza sejam responsáveis pela fama mundial da malbec, ela é uma uva francesa. E a França foi eliminada lá atrás. Quanto aos tannats, nesta Copa o Brasil não teve nenhum problema com o Uruguai mas, há que se dizer, a tannat tampouco é uma uva sul-americana — apesar de os vinhos feitos a partir dela em terras uruguaias estarem se tornando cada dia mais cotados. As duas castas são do sudoeste da França, como vemos no post Malbec e tannat: o passado francês. Seus vinhos têm personalidades próprias, mas são parecidos de corpo e alma. São na maior parte das vezes vinhos densos, escuros, perfeitos para acompanhar carnes, guizados, pratos fortes ou mesmo para serem tomados puros na frente da lareira.

Claro, não são os únicos com essas características. Cabernets, merlots, syraz e vários vinhos de corte se encaixam no mesmo perfil. Mas há algo na alma das duas castas que as une da origem aos dias de hoje. A malbec veio de Cahors para a América Latina e se deu melhor em Mendoza que em sua própria terra. A tannat saiu de Madiran para fazer sucesso no Uruguai e, agora também, na Campanha Gaucha. Tanto o vinho de Cahors como o de Madiran conquistaram prestígio na Idade Média. Ambas as castas, no entanto, passaram por Bordeaux, e até hoje fazem parte das uvas permitidas no corte bordalês, sem nunca ter feito grande sucesso por lá. A seguir, minhas impressões sobre alguns rótulos que fizeram parte de uma degustação comparativa sobre o tema que conduzi para uns amigos há umas semanas:

PARA LÁ DO FIM DO MUNDO

IMG_20140704_144718A Campanha Gaúcha promete ser a grande região vinícola brasileira. Não tem a tradição da Serra, do Vale dos Vinhedos, mas tem uma grande vantagem: clima seco na época da colheita. Já fazem vinhos muito bons. E o tannat é a estrela da região. Era de se imaginar: a Campanha faz fronteira com o Uruguai. O único problema é a distância: é difícil encontrar os vinhos de lá em São Paulo (eu achei, na Buenos Vinhos) e fazer turismo por ali não é muito simples. Já estive lá duas vezes, sempre de carro, porque não há voo comercial. É longe. Lembra daquela música: “Em Passo Fundo, bem pra lá do fim do mundo…”? Pois é, saí de Bento Gonçalves, perto de Porto Alegre , viajei horas, passei por Passo Fundo e viajei mais algumas horas. Não visitei a Estância Guatambu, infelizmente. Mesmo assim, escolhi o Rastros do Pampa Tannat para a degustação porque ele é super premiado. Ficou entre os top 10 da Expovinis, em abril deste ano, concorrendo com vinhos do mundo todo. Achei mais leve do que eu esperava. Não senti toda a estrutura do tannat. Isso não quer dizer que não gostei. Tem um nariz ótimo, muita fruta escura, especiarias e até algum floral. Tomamos o 2013. Ainda precisa de mais um tempo de garrafa. Custa R$ 59 na Buenos Vinhos.

DA TERRA DOS TRÊS MOSQUETEIROS

IMG_20140704_150824Como disse acima, a tannat vem do sudoeste da França. Mais precisamente, da Gasconha, a terra do foies gras, dos três mosqueteiros e do Cyrano de Bergerac. A denominação mais famosa é Madiran. Por lá, fazem vinhos de corte com predominância de tannat e alguns vinhos 100% tannat. É uma denominação pequena, e não chegam muitos Mandirans por aqui. A Decanter traz os vinhos do Alain Brumont, o produtor mais aclamado da região.  Escolhi o Brumont Merlot-Tannat, um corte, porque o 100% tannat estava acima do meu orçamento. Este é um vinho simples, não é um Mandiran, é um Côtes de Gascogne, uma apelação mais genérica, mas é um vinho delicioso. Quando eu disse que a tannat se deu melhor no Uruguai, em momento algum, quis dizer que os tannats franceses eram piores. Há tannats franceses maravilhosos, como os deste produtor. Mas a casta tem muitos taninos e custa a amadurecer. Então, em regiões mais frias, como é o caso da França, o produtor tem de esperar demais para colher e, por isso, corre mais riscos. Adorei este vinho. Ele é menos denso que os tannats uruguaios, mas tem corpo. No nariz, além das frutas escuras, das especiarias doces, do alcaçuz, tem jasmim, um aroma surpreendente, que amo nos tintos. Não é caro, custa R$ 62.

MALBEC NO NOME, CÔT NA ALMA

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Malbec é o nome que a uva recebeu quando chegou a Bordeaux no século XVIII. No sudoeste da França, ela se chama côt, uma curruptela de Cahors. Até hoje, se você olhar a ficha técnica de vinhos da região, verá que há uma predominância da casta côt (mínimo de 70%). Com o barulho feito pelos vinhos argentinos, no entanto, muitos franceses de Cahors estão dando o braço a torcer e chamando seus vinhos de Malbec, além de fazer mais vinhos 100% dessa casta do que costumavam. Compreensível que os franceses engulam sua repulsa pelos vinhos do Novo Mundo: todo mundo quer ganhar dinheiro. Pelo menos no caso do Pigmentum Malbec, a concessão pára aí. O vinho é muito francês. É mais austero que os dos hermanos. Sem ser nada rude, é menos aveludado na boca que os malbecs argentinos. No nariz, tem as frutas escuras, mas quase não tem aquele floral, aquela violeta que, confesso, às vezes, me cansa. No seu lugar, aparecem o tabaco, o couro, a pimenta preta. Muito bom. Custa R$ 66 , na Vinci.

EXTREMO SUL

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A malbec fez fama em Mendoza e hoje está por todos os cantos da Argentina (veja post A Malbec e as regiões vinícolas argentinas), até na Patagônia, um território imenso, pouco habitado e gelado boa parte do ano. A região é mais conhecida por seu pinot noir, mas pessoalmente gosto muito dos malbecs da Patagônia. Acho-os mais elegantes. Como é mais frio, a maturação é mais lenta. Com isso, os vinhos costumam ter maior acidez. Os aromas são menos exuberantes e mais profundos. Neste Humberto Canale Estate, da sub-região de Rio Negro, a fruta negra era marcante, mas fresca, havia alguma mineralidade.  Na boca, já se sente que estamos na Argentina: o vinho é encorpado e redondo. Sai por R$ 54, na Grand Cru.

CONCENTRAÇÃO E CORPO

IMG_20140704_145925Falei da Bouza Bodega Boutique no post 12 vinhos e pratos uruguaios para apetites vorazes. É um passeio delicioso para quem vai a Montevidéu, mesmo a negócios. Dá para ir almoçar no ótimo restaurante da vinícola e voltar para trabalhar à tarde.  Aliás, toda a região de Canelones (veja post A tannat e as regiões vinícolas do Uruguai) fica bem próxima á capital. Ali estão concentrados alguns dos melhores produtores de tannat do mundo. Os uruguaios têm investido muito em melhorar a qualidade de sua produção vinícola e o resultado é evidente. Este Bouza Tannat é um dos vinhos mais simples da bodega, mas é bastante bom. Tem muito tanino, da uva e da passagem pelos barris de carvalho, mas eles são redondos. O vinho enche a boca. No nariz, se sente a fruta escura, a especiaria. Para o meu gosto, porém, o torrado da madeira ainda está se sobressaindo um pouco demais. Com certeza, este vinho estará ainda melhor daqui a um ano ou dois. Custa R$ 78 na Decanter.

NO TOPO DO MUNDO

IMG_20140704_144819Na degustação, fiz as pessoas provarem este vinho às cegas e me dizerem se achavam que se tratava de um tannat ou de um malbec. A ideia era mostrar como é difícil diferenciar uma casta da outra. Eu sabia de que vinho se tratava, mas acho que se não soubesse teria adivinhado que era malbec pelo aroma de violeta, muito típico. O Amauta Absoluto, da Bodega El Porvenir, de Cafayate, em Salta, além do floral, tem bastante fruta vermelha e negra frescas e pimenta preta. Perto da maioria dos malbecs argentinos, é um vinho de menos corpo. Na boca, o frescor é evidente. Sente-se o perfumado. Salta, no Norte da Argentina, é uma região desértica, muito alta, com vinhedos em altitudes que variam 1,5 mil metros a 3 mil metros. É mais famosa pelos seus vinhos brancos, mas tem rendido ótimos malbecs. Este sai por R$ 55, na Grand Cru.

AROMAS QUE SEDUZEM

IMG_20140704_145023Já falei deste vinho (também no post 12 vinhos e pratos uruguaios para apetites vorazes). Mas na degustação ele provocou uma reação muito interessante nas pessoas, então, decidi voltar a falar dele. No grupo, que tem um grau heterogênio de conhecimento sobre vinho, até este momento da degustação, muitos estavam pendendo para o lado da malbec, dizendo que preferiam decididamente a malbec á tannat. De fato, uma das diferenças entre a malbec e a tannat, é que a tannat é menos aromática. Outro é que ela tem mais acidez, pede comida. Num primeiro contato, a malbec costuma conquistar mais. Mas o RPF Tannat, da Pisano Artesania en Vinos Finos, em Progreso, Canelones, tem um nariz absolutamente sedutor, cheio de flor, fruta, especiarias. Na boca, é redondo e persistente. Esta garrafa comprei na bodega e trouxe na mala. Na Mistral, o vinho custa R$ 64.

ELEGÂNCIA E POTÊNCIA

IMG_20140704_151353Por falar em trazer vinhos na mala, este argentino veio comigo do Neutral Free Shop de Rivera, loja na fronteira do Brasil com o Uruguai com preços ótimos para vinhos de todas as partes do mundo. Lá comprei também dois grand crus franceses, que me aguardam na adega climatizada. O Bramare Malbec Lujan de Cujo faz parte de uma linha intermediária da Viña Cobos. É uma linha cara, começa nos 200 reais. No entanto, vale lembrar que tudo o que a Viña Cobos produz é bom: do vinho de entrada (Felino) ao top de linha (Cobos). A vinícola é um projeto do americano Paul Hobbs em Mendoza. No ano passado, conheci Paul Hobbs em um jantar organizado pela Mistral em torno de seus vinhos californianos. Ele falou bastante de sua história: dos tempos em que trabalhava com Robert Mondavi, de como ajudou Nicolas Catena a inventar a malbec  e, até, de como conheceu a atual esposa, algumas décadas mais jovem que ele. Hobbs sabe que é bom. Nada contra. A estrela da tarde, este vinho não decepcionou. Tem elegância e potência ao mesmo tempo. Nariz complexo, com aromas de frutas escuras, tabaco, especiarias, algo do defumado da madeira. O carvalho, aliás, é uma marca de Hobbs, mas sempre muito bem integrado. Na Grand Cru, este vinho custa R$ 208. Se estiver muito acima de seu orçamento, experimente o Felino, que custa R$ 84.

 

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2 pensamentos sobre “malbec e tannat: francesas de alma sul-americana

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