Muito além do Cabernet Sauvignon

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Como boa parte das pessoas, na adolescência eu já bebia. Não estou dizendo que isso é bonito, mas é a verdade. À diferença da grande maioria dos adolescentes bebuns, no entanto, eu era exigente. Fazia questão de um sabor que me agradasse. Claro que não tinha um paladar apurado, mas também não aceitava qualquer coisa. Bebia principalmente drinques: caipirinha, hi-fi, whisky sour e outros coquetéis hoje considerados vintage. Gostava de cognac, tomava uma taça de champanhe (que não era champanhe de verdade) no Natal e outra no Reveillon e bicava uísque em casamentos e festas de debutante.  Não bebia cerveja, não tomava pinga com mel, virava o nariz  para as batidas do Rei das Batidas e detestava, ora vejam só, vinho tinto. Detestava por dois motivos: porque tinha nojo de borra e, principalmente, porque só tinha experimentado vinho tinto ruim, o vinho de garrafão que alguns amigos adoravam.

Quando, com 17 anos, descobri o Cabernet Sauvignon chileno, me apaixonei. O nojo da borra passou rapidinho. Na época, a qualidade do vinho chileno não chegava nem perto da atual. E a minha verba para vinhos tampouco. Mas Cabernet Sauvignon chileno é bom mesmo quando é ruim. Tanto que o mundo se acostumou a tomar o Cabernet chileno e se esqueceu do resto que o país produzia. Depois apareceu a história da Carmenère, a uva “chilena”. Nunca chegou a me convencer. Contudo convenceu muita gente, tanto que hoje é a terceira variedade fina tinta mais plantada no país, ficando atrás só da Cabernet Sauvignon e da Merlot. Mais tarde, vieram os grandes chilenos, os vinhos ícones (veja o post Ícones da Mudança), cortes que misturavam várias uvas e fizeram muito sucesso. Como eram blends no estilo de Bordeaux, no entanto, a casta predominante era quase sempre a boa e velha Cabernet Sauvignon. De uns anos para cá, porém, o Chile está produzido tintos ótimos com várias uvas, outras cepas têm se destacado e eu aprendi a me aventurar.

carignanCarignan: O charme das vinhas velhas – Atualmente, sou apaixonada pela Carignan chilena. Ninguém pode me acusar de volúvel. Minha paixão pelo Cabernet Sauvignon durou anos. De uns tempos para cá, me encantei com os vinhos chilenos feitos a partir da Carignan, casta de origem espanhola, levada da Argentina para o Chile depois de o terremoto de 1939 destruir boa parte do parreiral de uvas País do Vale do Maule. Eram clones vindos do sul França (deve vir daí o costume dos chilenos de usarem o nome Carignan e não Cariñena, como os espanhóis). Por décadas, a Carignan permaneceu no Maule misturada com a uva País, variedade usada para fazer vinho pipeño, um estilo tradicionalmente barato, mas que também está sendo redescoberto (leia post O vinho de garrafão chileno está na moda). Há cerca de uma década, produtores chilenos importantes descobriram esse tesouro em vinhas velhas de Carignan no Vale do Maule (veja post Os Vários Terroirs do Chile). Essas vinhas estavam nas mãos de velhinhos que tinham se recusado a cortá-las para plantar variedades mais na moda. Vinhas velhas, como vocês talvez saibam, produzem grandes vinhos, vinhos concentrados, carnudos, mas com taninos redondos e sem aquele gosto de geleia dos vinhos que devem seus aromas frutados às temperaturas elevadas.

Além de Carignan, o país tem produzido ótimos Syrahs, Cabernets Franc, Malbecs e Pinots Noir. A seguir, sugestões de tintos chilenos que não são Cabernet Sauvignon nem Carmenère nem cortes bordaleses (os Pinots ficaram de fora porque terão um post só seu):

1-Certeza de qualidade

IMG_20141001_170530Quando os produtores importantes começaram a vinificar o mosto das vinhas velhas de Carignan, perceberam que se tratava de algo muito especial. Formaram, então, a associação VIGNO (Vignadores de Carignan).  Para colocar a marca da associação no rótulo, o vinho precisa ter no mínimo 65% de Carignan proviniente de vinhas não irrigadas com mais de 30 anos e envelhecer por dois anos na bodega antes de ser lançado no mercado. A marca Vigno ganhou tanto prestígio que em alguns casos aparece no rótulo maior que o nome do produtor. Não experimentei todos, mas provei vários rótulos Vignos. Eram sempre bons. Este Vigno by Gillmore 2010, tomei com um amigo outro dia na deliciosa loja/wine bar da sommelière Eliana Araujo, a Wine Soul Store, por R$ 117. É um Carignan simples, mas muito gostoso. Cheio de fruta, redondo na boca.

2 -Fresco e concentrado

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Não encontrei informação nem no site da vinícola nem no da importadora sobre a idade dos vinhedos deste Anakena Tama Vineyard Selection Carignan. Contudo, pelos aromas, pela presença e a elegância na boca, devem ser vinhas velhas. Tem aquela fruta escura conservada em álcool que eu adoro. Tomei este 2010 em um almoço com meu irmão no DiBaco, um restaurante de carnes aqui do lado de casa, que tem uma lojinha de vinhos e serve esta garrafa na mesa por R$ 79, menos que na importadora.

3 -A força do terroir

IMG_20141009_170228 Já faz um tempo, fui jantar com dois enólogos, amigos de Portugal, pai e filho, que estavam visitam São Paulo. António Saramago é um dos maiores enólogos de Portugal, entende tudo de vinhos. Seu filho, António José, é jovem, mas também tem muita experiência na área. Ambos ficaram muito impressionados com este Santa Carolina Dry Farming Carignan. Disseram que nunca tinham bebido um Carignan tão bom. Segundo eles, na Europa, essa variedade não tem a mesma personalidade e potência. Ou seja, o terroir aqui faz toda a diferença. De fato, o vinho tem um nariz delicioso, enche a boca e permanece no paladar. Mas dá para beber um monte sem se empanturrar. Custa R$ 90, na Casa Flora.

4 -O outro Cabernet

IMG_20141001_171712Vocês já repararam que o povo anda falando um monte dos vinhos Cabernet Franc? Está meio na moda. Uma das uvas mais antigas da região de Bordeaux, acredita-se que ela tenha origem no País Basco, Espanha. É a mãe, ou o pai, sei lá, da Cabernet Sauvignon, que foi criada a partir de um cruzamento entre a Cabernet Franc e a branca Sauvignon Blanc. A grande tinta do Vale do Loire, rende vinhos aromáticos e bem estruturados. O Chile não produz muitos Cabernets Franc, mas tem lançado rótulos de boa qualidade. Gostei muito deste Botalcura La Porfia Cabernet Franc 2011. Da D.O. Valle de Maule, tem um aroma profundo de cereja escura, o chocolate e tostado da passagem pela madeira, algo de especiarias. Na boca, tem taninos de qualidade em quantidade. Vale mais que os R$ 62 que custa na rede de supermercados St. Marché.

5 – Fácil e elegante

IMG_20141001_172842Tenho andado bastante impressionada também com os Syrahs do Chile. Tem coisas ótimas de estilos variados. Os vinhos do Vale Central (veja post Os Vários Terroirs do Chile), na área entre cordilheiras, têm frutas escuras mais maduras e os da Costa, mais especiarias. Este, do Vale do Colchagua,é frutado no ponto. Um vinho fácil, mas elegante. Seus taninos são redondos, o corpo é médio e a acidez boa. Fica na boca a vontade de beber mais. Custa R$ 54 na World Wine.

6- Frutado na medida

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Este Ventisqueiro Queulat Syrah 2010, vinho escuro e denso do Valle do Maipo (veja post Os Vários Terroirs do Chile), é escuro e denso. tem aromas frutados e até algo de  floral,, mas  já começam a se destacar as especiarias, o tabaco. A boca é melhor que o nariz. É equilibrado, tem taninos em boa quantidade, mas finos, a fruta está na medida. Abri para provar e o que restou levei ao aniversário de uma amiga. Fez muito sucesso. Importado pela Cantu, custa R$ 59.

7 -Para irritar os hermanos

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Na viagem que fiz para o Uruguai em agosto, no meu grupo de experts de que participei, havia um jornalista argentino e outro chileno, dois sujeitos que se conheciam e pareciam amigos. Como é comum entre amigos homens, de vez em quando, um provocava o outro. Em um episódio, o chileno ficou brincando com o argentino sobre uma degustação às cegas de Malbecs que aconteceu em Santiago. Parece que os Malbecs chilenos levaram todos os prêmios e o júri era composto de representantes dos dois países. Uma espécie de Julgamento de Santiago. De fato, o Chile tem feito Malbecs delciosos. Este Caliterra Tributo Malbec 2010, do Vale de Colchagua, tem aromas de fruta escura, algo de chocolate, nada daquela flor enjoativa que às vezes me mata no Malbec argentino. Senti até um certo patchouli. Na boca, é potente mas elegante. Custa R$ 88 na Decanter

8 -Fruta com chocolate

IMG_20141001_173859Do Vale do Maule, uma região mais seca e quente, este J. Bouchon Reserva Especial Malbec 2010 tem aroma de  fruta madura, mas não em geléia. É bastante complexo no nariz. Aparecem o chocolate amargo, o tabaco, o toffee, a baunilha. Na boca, é super redondo. Tomei em Ubatuba numa noite fria (como vocês podem ver pela foto feita no deck no dia seguinte) e fiquei muito feliz. Sai por R$ 69 na Vinos e Vinos.

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