Em busca do terroir goiano

IMG_20140525_205112Saiu hoje uma matéria minha no caderno Comida da Folha de S.Paulo sobre um produtor de vinhos que está fazendo um bom Syrah e um bom Barbera no Cerrado. A reportagem (Medico dobra produção de vinho em região com clima de deserto em Goiás) traz a história de Marcelo Souza e Silva, otorrinolaringologista da PM goiana, vitivinicultor auto-didata, que colocou na cabeça a ideia de que o Planalto Central é um bom lugar para produzir vinhos e fez com que ela se tornasse realidade. Conheci Marcelo em 2010, quando estive em Goiás para o V Festival Gastronômico e Cultura de Pirenópolis. Na ocasião, ele fez uma pequena degustação informal da safra 2008, sua primeira. Provei seus vinhos Intrépido (Syrah) e Bandeiras (Barbera) e achei que tinham futuro.

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Em maio deste ano, voltei para a nona edição do festival. Marcelo, sua mulher, Adriana, e sua vinícola, a Pireneus Vinhos e Vinhedos, já eram uma das grandes atrações do evento que reúne chefs brasileiros e internacionais do maior nível. Sua degustação foi super concorrida. Em setembro passado, Marcelo e Adriana, que está se formando em gastronomia, abriram o turismo na vinícola com almoços para grupos fechados. Vamos e venhamos, uma vinícola a poucos quilômetros acrescenta um tanto de charme a um festival gastronômico. Quem sabe, em 2015, o passeio à Pireneus será incluído na programação oficial?

Charme, no entanto, não falta à Pirenópolis. A cidade tem um casario incrível, que mescla construções do período colonial e dos anos art déco. Tem uma cozinha típica muito interessante, com suas pamonhas salgadas, seus empadões, seus pequis e suas guarirobas (palmito amargo). Ao redor, há dezenas de cachoeiras e matas a serem exploradas. No centro e em sítios ou fazendas das redondezas, existem restaurantes meio sofisticados, mas o que realmente me chamou atenção foi uma portinha, chamada As Flôr (assim mesmo, com erro de concordância e ortografia), que serve refeições populares. Almocei lá em maio, entre uma palestra e outra dos convidados do festival. Quem me levou foi a Mara Salles, do restaurante Tordesilhas (São Paulo). Fomos em bando. Eu e um monte de chefs. Entre eles, a Neka Mena Barreto e o Laurent Suaudeau. Nunca vi as pessoas (inclusive eu) comerem tanto. Ia chegando arroz, feijão, franguinho no açafrão, salada de guariroba, carne moída, e a gente ia comendo sem parar. A Neka só comeu vegetais, mas vários deles. O Laurent, entre um prato e outro, repetiu umas três vezes: “Brrrigada porr terrem me trrrazido aqui”. Não lembro o preço, mas foi ridículo. Sem dúvida, um dos melhores momentos do festival.

Este ano, depois de Pirenópolis, segui por minha conta até Goiás Velho, ou Cidade de Goiás, como o povo de lá prefere que se fale. Queria conhecer a famosa baunilha do Cerrado. Outro deslumbre arquitetônico. Com suas incríveis casas e igrejas colonias e art déco, Goiás parece ainda mais parada no tempo do que Pirenópolis. Por lá, ouvi muito Zé Ramalho, tomei banho de rio, o rio que corta a cidade, e comi num restaurante perto desse rio. Um pouco menos genuíno e mais caro do que o As Flôr, mas bem mais arrumadinho, chamado Flor de Ipê, que também tem uma ótima comida típica e um preço razoável. A proprietária, Marlene Velasco, é diretora do Museu Cora Coralina, a poeta doceira de Goiás. Fiquei um pouco mais por ali depois do almoço curtindo o bonito jardim e conversei um pouco com Marlene. Ela, que conviveu com Cora Coralina por uns poucos anos, no fim até me indicou algumas doceiras para eu visitar, cada uma com sua especialidade. Sai de lá caminhando e passei numas três casas onde senhorinhas me recebiam como visita dos velhos tempos, com direito a café e docinho. Na cidade há várias dessas mulheres que vendem os seus doces em casa e, para comprá-los, basta bater na porta e estar disposto a um dedo de prosa.

Ainda é cedo para dizer, mas espero que Marcelo incorpore esse terroir à alma de seus vinhos, que já são tecnicamente muito bem feitos.

As Flor – Rua Prefeito Sizenando Jayme, 16, CentroPirenópolis, GO, tel. (62)3331-1276

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