Uma cerveja em Copenhague

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Placa de bar nas ruas de Copenhague: Øl é cerveja em dinamarquês. E bier, em alemão

No fim do ano passado, recebi um convite que me tirou daquilo que hoje o povo tem chamado de zona de conforto. Um convite para viajar à Dinamarca, comer bem e beber bem não é exatamente uma pauta difícil. Para mim, no entanto, impunha um desafio. O convite havia sido feito pela Royal Unibrew, a segunda maior indústria de cerveja da Dinamarca. Portanto, teria de beber um montão de cerveja. E eu nunca fui de cerveja. Nem na adolescência. Aos 15 anos, bebia caipirinha e, aos 17, fui direto para o vinho. Nos dez anos de trabalho com jornalismo de gastronomia, claro, já fiz matérias sobre cerveja e, no curso de sommelier, assisti a uma aula sobre o assunto. Porém, fiquei sempre na teoria. Só dava uns golinhos. O amargor da cerveja me incomodava e nunca me dei ao trabalho de provar diferentes estilos. O universo, no entanto, parecia estar me dizendo que estava na hora de aprender a beber cerveja. Dias antes de o convite chegar, eu tinha encontrado uma cerveja que me agradara: uma witbier que servi no menu harmonizado criado para um restaurante japonês.

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Cerveja de natal que não está no mercado brasileiro

Cheguei a Copenhague numa noite fria, mas nem tanto, de dezembro. Depois de me acomodar no quarto do hotel, sai para jantar com o grupo formado por jornalistas, executivos da importadora Have a Nice Beer, a assessora de imprensa da importadora e o representante da Royal no Brasil. Todos bons bebedores de cerveja. No restaurante, nos serviram um menu de Natal. Na Dinamarca, o Natal é levado super a sério. Enfeitam toda a cidade, os restaurantes servem um menu especial durante dezembro inteiro e os bazares se proliferam pelo país. Nessa época, muita gente pede uma Christmas beer. Foi o que nos trouxeram para harmonizar com o tal menu, que era composto de um salmão defumado de entrada e um tender como prato principal.  Tomamos a Royal X-Mas de rótulo azul (há também um branco). Para minha surpresa, o gosto não me desagradou. O caramelo do malte tostado equilibrava o amargor. Os aromas realmente lembravam Natal e caiam bem com o tender.

As Christmas beers são muito comum no hemisfério norte. Em geral, são cervejas potentes, com um grau alcoólico mais elevado para aquecer os ossos quando o frio aperta, têm cor de caramelo e aromas de Natal (gengibre, canela, noz moscada, etc). São chamadas também de winter beers, ou cervejas de invernos. Não seguem um único estilo. Há lagers e ales entre as Christmas beers (veja post 9 Imagens que servem como um curso de cerveja). Nem todas são cor de caramelo, tanto que há stouts (escuras) que levam esse nome. A Royal X-Mas Blue é uma Vienna lager. Tem cor de caramelo escuro, corpo médio e uma certa doçura na boca. O álcool não é tão alto: 5,6%. Consegui tomar uma garrafinha long neck inteira.

Casa de Nikoline e Conrad Nielsen, que fundaram a Faxe em 1901

Casa de Nikoline e Conrad Nielsen, que fundaram a Faxe em 1901

Na volta, o povo ficou tomando cerveja no bar do hotel e eu pedi uma taça de vinho italiano, confesso que com certa culpa. Mas ninguém me olhou feio. Respirei aliviada. No dia seguinte, saímos cedo para a visita à fabrica da Faxe, que fica em uma cidadezinha chamada Fakse (pronuncia-se da mesma forma que a cerveja). Fomos recebidos com bandeira do Brasil hasteada. Fizemos uma visita pela fábrica, aprendemos como era o processo de produção, assistimos a uma apresentação e degustamos algumas cervejas do grupo que, além da Faxe, tem uma série de outros rótulos no mercado europeu. Foi quando nos contaram que a empresa vai lançar a Faxe witbier (veja post Um ótimo começo), começando pelo Brasil em março. Tinham umas poucas amostras, que provamos.

Witbier é um estilo de cerveja que surgiu na Bélgica. Costuma ter mais trigo que cevada, levar pouco lúpulo, que é o que dá o amargor, e ser aromatizada com coentro e casca de laranja. É turva e esbranquiçada. Leve, fresca e quase sem amargor, arrisco dizer que é uma cerveja boa para dias quentes. Mas, por mim, apesar de naquela tarde estar fazendo uns 4 graus, eu continuaria bebendo a witbier no almoço. Mas, como era só uma amostra, na hora em que sentamos para almoçar, pedi uma X-Mas beer.

A portaria do Tivoli: para qualquer lugar que eu fosse, passava sempre em frente

A portaria do Tivoli: para qualquer lugar que eu fosse, passava sempre em frente

Naquela noite fomos ao Tivoli, o parque de diversão mais antigo do mundo, que fica bem no centro de Copenhague. Todo decorado para Natal, o parque estava cheio de pessoas passeando por suas alamedas. A maioria adultos. O lugar é lindo, cheio de brinquedos antigos, muito bem preservados, e repleto de lojas, restaurantes e bares. Como tinha esquecido meu brinquedo favorito, o celular, na fábrica da Faxe, não pude fotografar nada. A maioria dos adultos está ali para ver, fotografar, comprar, comer e beber. Não era o meu caso. Fiz questão de andar pelo menos num brinquedo. Com todo o frio que fazia, eu e outra jornalista enfrentamos o chapéu mexicano. Congeladas, fomos recebidas pela turma com um copo de gløgg, o vinho quente dinamarquês, muito tradicional no Natal. Vinho quente é outra coisa da qual nunca gostei, mas provavelmente porque aqui no Brasil é feito com vinhos muito ruins. Esse, além de cravo, canela, gengibre, como leva o nosso, tinha também passas e castanhas. Podia ser com ou sem rum. Escolhi com, é claro. Bem gostoso. Na sequência, jantamos em um restaurante lá dentro e, para minha surpresa, todos beberam vinhos. Vinhos maravilhosos. Comecei a achar que o povo da cerveja é mais democrático do que a gente, o povo do vinho. Na saída, passamos pelo biergarten do próprio Tivoli, onde experimentei várias cervejas. Só biquei, na verdade. Ainda não estava preparada para um porre de cerveja…

Foto antiga da Cervejaria Albani, em Odense

Foto antiga da Cervejaria Albani, em Odense

Melhor assim. No dia seguinte tivemos uma longa jornada. Fomos a Odense, a cidade do escritor dos mais famosos contos infantis, Hans Christian Andersen, e da cervejaria Albani, uma fábrica que hoje pertence à Royal Unibrew, mas que mantém um ar de pequena e tradicional. Depois de visitarmos a fábrica, a cidade, que é lindinha, e o museu do Andersen, comemos uma sequência de pratos tradicionais acompanhados de cerveja e schnapps (aguardente). Desta vez, bebi uma garrafa e meia. Escolhi a Albani Odense 1859, uma lager feita a partir de quatro tipos de malte diferentes, ao estilo da época da fundação da cervejaria, que eu havia provado na visita à fábrica pela manhã. Doce, com caramelo e notas de nozes, tinha menos amargor que a de Natal e me agradou ainda mais. Depois disso, assistimos uma palestra sobre como degustar uma cerveja (veja o post Do vinho para a cerveja em 8 lições).

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Mikkeller & Friends, um bar super animado com várias cervejas fantásticas e vinho muito bom

Chegamos a Copenhague quebrados, mas o povo era animado. Fomos quase todos para o bar Mikkeller & Friends, que viria a se transformar no meu preferido de Copenhague. O dono, Mikkel, é uma estrela do movimento de cervejeiros artesanais. Com parceiros pelo mundo a fora, faz  as super badaladas cervejas Mikkeller (trazidas para o Brasil pela Interfood e também comercializada pela Have a Nice Beer). Experimentei a witbier deles. Ótima. Alguém me trouxe uma lambic, que é um estilo mais ácido e frutado, com pouco amargor. Gostei. Pelo que li numa lousa, tive a impressão de que eles tinham algo que era cerveja misturada com vinho. Achei super diferente e pedi. Quando recebi a taça, vi que se tratava simplesmente de um vinho. Eu que não havia entendido direito, apesar de a lista de produtos estar em inglês. Um engano muito bem vindo. A Mikkeller produz um riesling muito bom na Alemanha. Mineral, com ótima acidez, elegante.

IMG_20150204_210853O trabalho “duro” havia acabado. Tínhamos mais um dia de folga e, depois, a maioria do grupo voltaria para o Brasil. Eu ainda ficaria na Dinamarca mais quatro dias e, depois, seguiria para a França para fazer uma reportagem sobre os vinhos de Bordeaux. Nesses dias de “folga”, mudei para um hotel mais barato, fui a um mercado de comida de rua, bebi uma cerveja com pimenta e manga muito boa, passei pelo Mikkeller com uma amiga antes de voltar a Odense, visitei uma vinícola em Kolding (aguarde post sobre a incrível história do sujeito que resolveu fazer vinho na Dinamarca), retornei a Copenhague, comi comida tailandesa e acabei novamente no Mikkeller & Friends.

Na última noite, degustação informal de cervejas Mikkeller

Era minha última noite na Dinamarca. Depois de comer um camarão tailandês bem gostoso, quase voltei para o hotel. Como o restaurante era em frente ao Mikkeller & Friends, apesar de estar sozinha, resolvi entrar para tomar uma tacinha do tal riesling. Já tinha acabado o trabalho mesmo. Eu não precisava beber cerveja. Sentei num cantinho do balcão e pedi meu vinho. Estava lá tranquila quando, de repente, alguém chegou com uma taça de cerveja e disse: “Experimenta isso”. Eu tinha me entregado! Estava bebendo vinho num bar de cerveja! “Eu ia só começar com o vinho, depois ia passar para a cerveja”, fui me desculpando. Percebi, então, que estava falando com um dos friends do Mikkeller & Friends. Mixen Lindberg, diretor de pesquisas da Mikkeller, é o braço direito do fundador Mikkel e a pessoa responsável por buscar inovações. Com ele, estava Kyle Wolak, mestre cervejeiro da americana 3 Floyds, outra cervejaria artesanal super badalada, que está em Copenhague para montar um brewpub em conjunto com a Mikkeller. Não teve jeito: me identifiquei como jornalista e comecei a fazer perguntas para ambos. Enquanto conversávamos, Mixen ia me dando taças de diferentes cervejas, e eu ia bebendo. Quando terminou a noite, vi que tinha seis taças vazias na minha frente. Tinha aprendido a gostar de cerveja.

OUTROS PRAZERES

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