A sommelière e o poeta

pablo-neruda-poeta-apaixonado-por-vinhos

Já trabalhei em jornal. Sei que o espaço é limitado. Por isso, quando enviei um texto grandoto sobre enoturismo no Chile para o caderno Turismo da Folha de S.Paulo, em julho passado, sabia que ele seria cortado. Não sabia o que iriam cortar, mas imaginava que iriam cortar. Por sorte, entre outros trechos, cortaram o que falava de Casablanca e do Vale de San Antonio. Sorte não porque seus vinhedos não mereçam ser visitados. Muito pelo contrário. A região litorânea a poucos quilômetros de Santiago é linda e produz vinhos maravilhosos. Sorte porque, assim, posso usar o trecho cortado aqui no blog e falar daquilo de que mais tenho vontade de falar desde que soube que faria uma matéria sobre turismo no Chile: Isla Negra, a casa de sonhos do poeta Pablo Neruda.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Neruda era um bon vivant. Compôs uma Ode ao Vinho. Mas compôs odes para umas quinhetas mil coisas. Não é por isso que quero falar de Isla Negra. É porque se trata de uma paixão antiga, e mal resolvida. No fim dos anos 90, fui a Santiago entrevistar o escritor António Skarmeta, autor do livro que inspirou o filme O Carteiro e o Poeta, para a falecida revista Bravo!. Na época, eu bebia vinho, mas não trabalhava com isso. Nem pensei em visitar vinícolas. Depois de longas conversas com Skarmeta sobre Neruda, com o pouco tempo que me restou, preferi visitar La Chascona, antiga casa do poeta em Santiago e atual sede da Fundação Pablo Neruda. Amei. A casa parecia ainda estar habitada por Neruda, quase dava para ouvir a conversa dos amigos na sala. Tinha tudo a ver comigo. Como eu, Neruda era um acumulador. Fazia coleções de várias coisas. Havia máscaras e carancas por todo o lado, como na minha casa. O guia nos contou que adorava receber amigos para comer, entre eles, nomes como Vinícius de Moraes ou Pablo Picasso. No entanto, eu sabia que aquela casa não era a mais legal. A casa de Isla Negra, que não é uma ilha e, sim, uma praia, era maior, guardava coleções mais preciosas e ficava na areia, em frente ao mar. Quis muito ir, mas não havia tempo. Tive de me contentar com o belo livro sobre a casa que comprei e guardo até hoje com o maior carinho. Mais tarde comecei a escrever sobre vinhos e me formei sommelière, mas nunca consegui ir a isla Negra. Quem sabe, se um dia for ao Chile a passeio… Bom, fica a sugestão. E, se você for a Isla Negra, pare em Casablanca e San Antonio.

No caminho do litoral, esses dois vales são especialistas em vinhos brancos e tintos de clima frio, pois a brisa do Pacífico refresca os vinhedos. Se for  visitar a casa de Pablo Neruda ou Valparaíso, vale passar por eles e ficar hospedado por lá. Principalmente, para quem tem 275 dólares (por pessoa, com meia pensão) para gastar na diária do charmoso hotel boutique da Matetic Vineyards, em San Antonio, a 105 quilômetros de Santiago. Eles têm grandes syrahs e brancos muito interessantes. No mesmo vale, você encontra também a Viña Leyda, que tem pinots deliciosos.

Em Casablanca, treine seu nariz cheirando frutas e ervas da região cujos aromas vão aparecer nos vinhos degustados na Casas del Bosque. Essa é uma experiência que não dá para ser reproduzida no Brasil. Aprenda sobre vinhos orgânicos na Emiliana. E almoce no House, Casa del Vino, um misto de bodega e restaurante, onde os enólogos do grupo Belén (Morandé) podem fazer vinhos experimentais, todos muito interessantes. Por ali, estão também a própria Viña Morandé, as Bodegas RE (projeto pessoal de Pablo Morandé) e  a ótima Viña Indómita.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s