Por que não wine hour?

abreOs escritório e a happy hour parecem ter surgido juntos. A cervejinha gelada depois do trabalho, acompanhada de linguiça acebolada, bolovo, pastel, tem toda a cara de coisa sagrada, um costume super brasileiro, tão antigo quanto a transformação das vilas em grandes metrópoles. Esse costume, no entanto, é bastante recente. Nasceu no início dos anos 80. Eu lembro. Nos anos 70, tirando uns poucos boêmios, todo mundo voltava direto para casa depois do trabalho. Os meus pais nunca fizeram happy hour.

Nos anos 80, a era yuppie, começou a surgir uma porrada de novos bares em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, etc. Antes disso, nessas cidades, quase só existia restaurante, onde você ia jantar em ocasiões especiais, ou boteco de esquina, desses que tem até hoje, onde mulher só entra para comprar cigarro e sai correndo. Os novos bares da década de 80 vieram democratizar a botecagem e começaram com a ideia de promover a happy hour — tentando convencer o brasileiro a aderir ao hábito americano. Os moradores das grandes cidades acabaram por aderir. Só que, invés de tomar uísque ou coquetéis como nos EUA, trouxeram para a mesa da happy hour a cerveja barata e estupidamente gelada, o chopp, a cachaça e os petiscos dos botecos da boêmia carioca, esses sim bastante tradicionais.

Tomar cerveja na happy hour não é lei, e nem uma tradição antiga como vimos. Então, por que não transformar a happy hour em wine hour? Principalmente, se você, como eu, é mais do vinho do que da cerva. Aliás, desde os anos 80, ainda bem novinha, eu tentava tomar vinho na happy hour. Não era nada fácil. Já engoli muito cabernet sauvignon Concha y Toro, Santa Carolina ou Santa Helena Reservado, quente ainda por cima, harmonizando com caldinho de feijão. Acho que hoje não desceria.

Agora, no entanto, está mais fácil para os enófilos, ou enochatos, como preferirem. Há uma série de wine bars (veja os posts Novos bares de vinho e São Paulo e Onde beber vinho nas cidades sede da Copa) pelo Brasil à fora, os bares estão mais sofisticados e até nos botecos comuns quase sempre há uma opção. No meu caso particular, a coisa melhorou ainda mais porque aprendi a fazer as escolhas certas. Aprendi, por exemplo, a optar pelos espumantes no caso de uma carta mediocre. Não é difícil encontrar espumante bom no Brasil.

Para testar vinhos e comidinhas, e ensinar você a se sair bem num happy hour com vinhos, organizamos uma degustação na redação do site Huffpost Brasil, onde sou colunista de vinhos há dois anos. Veja as fotos do evento e abaixo as dicas de alguém com vasta experiência em wine hour:

1 – No wine bar ou no boteco: na maioria das vezes, você tem a opção de beber vinho

Como disse acima, hoje há muitas opções para quem deseja fazer uma wine hour. A maioria dos botecos tem algum rótulo para oferecer. Nos mais simples, em geral, você encontra duas ou três alternativas. Na maioria das vezes, de grandes marcas nacionais ou chilenas. Se for esse o caso, sugiro que você vá de espumante, que não costuma dar erro e combina com tudo. Até com caldinho de feijão.  Porém, se conseguir convencer seus amigos a abandonarem a “tradição”. Há bares de vinhos em todas as partes do país. Neles, você pode ousar mais, pedir petiscos mais sofisticados e provar vinhos bacanas. Em geral, as casas têm um sommelier. Chame por ele.

2 – Bons movitos para… 

aderir à wine hour: 1. Várias das comidinhas de happy hour harmonizam melhor com vinho do que com cerveja ou caipirinha. É o caso do bolinho de bacalhau, por exemplo. 2. Hoje as opções de bares que vendem vinhos por taça é enorme. 3. O espumante brasileiro é barato, uma delícia e fácil de encontrar. Combina com o fim-da-tarde. 4. Não é preciso nenhuma formalidade para tomar vinho. 5. No jantar, você provavelmente vai tomar vinho. Então, por que misturar?

ir com calma na wine hour: 1. Lembre-se que o teor alcoólico do vinho é bastante mais alto do que o da cerveja. Uma cerveja comum costuma ter 5% ou 6% de álcool. Um vinho pode chegar a 14% ou 15%. 2. Vinhos costumam custar mais caro que cerveja. Se pedir por taça, vá fazendo a conta. 3. Seja especialmente atento aos preços caso seus amigos estejam bebendo cerveja. Não é bonito fazer os outros pagarem pelo que bebemos ou comemos.

3- Como sobreviver a um happy hour com vinhos

Embora muita gente esqueça disso, a ideia da happy hour é relaxar, não se embebedar. Como o vinho costuma ser mais alcoólico que a cerva, no wine hour é ainda mais importante lembrar de comer.  Importantíssimo também é beber muita água: um copo para cada taça de vinho.  Vários dos bares onde a gente faz happy hour não têm ar-condicionado. Portanto, em dias quentes, tente evitar vinhos pesados, muito tânicos, eles podem dificultar a digestão. Peça um espumante, um vinho branco ou, se fizer questão de tinto, um tinto leve, como um pinot noir.

4 – A palavra é versatilidade, não se prenda muito a regras de harmonização

Se há uma coisa com que happy-hour não combina é com enochatices. É um momento descontraído, não dá para se preocupar demais com a qualidade das taças, as regras de serviço ou harmonização.  Em geral, a gente pede mais de um tipo de petisco e nem sempre eles chegam na hora certa, junto com o vinho certo. Às vezes, depois de comer linguiça, você resolve comer bolinho de bacalhau. Quando pede o bolinho, sua taça está cheia de vinho branco. Na hora que o bolinho chega, o branco acabou e você já está a fins de partir para o tinto. Relaxe e seja versátil. Vinhos brancos, rosés e tintos leves combinam com um número maior de petiscos.

 

5 – Tradicionais e inovadores encontram sempre seu par

Você não precisa seguir regras de harmonização à risca, mas pode brincar com a enorme diversidade de estilos de vinhos e a variedade de petiscos. Frituras, como pastéis, bolinho de arroz, bolinho de queijo, bolinho de bacalhau, vão bem com vinhos brancos frescos, que não tenham passagem por barricas de carvalho. Frios, como salame, presunto, mortadela podem ser comidos com tintos mais pesados.

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