Manifestante acidental

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Fui à meia dúzia de manifestações políticas na vida. Militância nunca foi o meu negócio. Sempre achei essa história de apoiar um partido cegamente algo irracional, meio como torcer para um time futebol. Nos últimos tempos, no entanto, senti necessidade de me posicionar, de dizer ao Facebook e ao mundo o que estou achando da situação do país — principalmente depois que a PM passou a distribuir porrada pra tudo quanto é lado, de uma maneira tão truculenta que me fez lembrar do medo que, ainda criança, eu já tinha de polícia nos anos 70. Embuída desse espírito cívico, domingo, apesar do pavor de apanhar da polícia, de me ferir com uma bomba ou tomar um tiro de bala de borracha, achei que devia ir à manifestação da Avenida Paulista.

Depois de almoçar com a família numa churrascaria de Santa Cecília, pego um bumba e desembarco na Alameda Santos, na esquina do Parque Trianon. Minha ideia era não me aproximar demais do MASP, onde, imaginava, podia rolar o pega pra capa. No quarteirão que separa a Santos da Paulista, passo ao lado de uns dez camburões estacionados. Quase já na avenida, cruzo com um monte de soldados e soldadas. Elas, todas arrumadinhas, cabelo preso num rabo. Nem elas, nem eles, com muita cara de bravos. Perco um pouco do medo.

Chegando à Paulista, encontro uma amiga parada na esquina e por  lá fico. O medo vai sendo substituído por um certo tédio. Não consigo gritar, por mais que acredite nas palavras-de-ordem ditas. Não me sinto emocionada como fiquei no comício das Diretas Já. Não consigo cantar (mas também, isso, ninguém merece). Um vinhozinho bem que poderia ajudar a entrar no clima. Passa um ambulante vendendo bebida: Skol, água e vinho químico.

Surgem umas amigas da minha amiga. Trocamos duas palavras. Não sinto o clamor das ruas na nossa conversa. Onde estariam aqueles meus amigos tão entusiasmados do Face? Se ao menos encontrasse com eles, talvez conseguisse dar mais de mim pela causa. Devem estar lá no meio da muvuca, é claro. Além de animar, um vinho me ajudaria a perder o medo de ir até lá. Passa outro ambulante: Skol, água e vinho químico. Nem uma Coca zero. Me irrito. Correndo o risco de parecer o ser mais alienado do planeta, comento: “Bem que podia passar um vinho de verdade.” A amiga de minha amiga responde: “Na manifestação dos coxinhas teve Champagne, você viu?”.

downloadNãaaooo, não vi. Que ódio! Por que eles podem tomar Champagne e eu tenho de passar a seco? Bec780e86f533a8c8a98df207853deecedber bem, por um acaso, tem de ser privilégio da direita? Stalin, talvez vocês não saibam, investiu numa fábrica de ótimos espumante e determinou que se produzisse “um champagne para as massas” — de alta qualidade, mas numa escala e num preço que tornassem possível que cada camarada da União Soviética bebesse ao menos uma garrafa por ano. Não viaja, Tânia! Você não é comunista e, muito menos, admiradora de Stalin (embora a história do espumante seja verdadeira). Mal e mau se pode dizer que você é de esquerda. Só acredita em algumas medidas sociais e nāo suporta ver gente levar porrada à toa. Outro ambulante: mais Skol, água e vinho químico. Raiva!

Tomo, então, coragem e chamo minha amiga para caminharmos em direção ao Masp. Vamos até lá, mas a massa já se desloca no sentido do Ibirapuera. Na frente da Fiesp, os manifestantes param e gritam: “Fora Temer”. Droga, minha voz não sai. “Golpistas, facistas, não passaram”. Preciso de um vinho. É tão mais fácil fazer política no Facebook! “Você vai querer seguir a passeata até o Ibirapuera?”, pergunto à minha amiga. Ela responde que não, que não está muito boa. “Quer ir beber alguma coisa?”, digo mais que prontamente. “Que tal irmos ao Mirante 9 de Julho?”. Ela concorda, damos meia volta e começamos a nos afastar da manifestação.

Ao dobrar a esquina daquela ladeirinha que desce para a 9 de Julho, vejo uma bicicleta cheia de garrafas de destilados, copos bacanas, material de coquetelaria. Sorrio. Um rapaz pedala e uma moça vai a pé do lado. Eu me aproximo e puxo papo. Conversa vai, conversa vem, descubro que eles estavam na Paulista o tempo todo. Eu é que não vi. Que a bike se chama Baboo’s Bike Bar, que é deles, que eles são um casal. Que trabalharam no Astronet, no Alberta #3 e no Ramona, bares e baladas mais que familiares. E que conhecemos muita gente em comum. Pergunto se eles ainda estão fazendo drinques. Baboo responde que sim, mas que precisa estar no plano e se oferece para voltar a Paulista. “Não precisa”, respondo já com o humor completamente reestabelecido. “Vamos descendo que a gente tá indo para o mirante.”

unnamed-1Paramos embaixo do Masp e pego o cardápio. Nenhum Coquetel Molotov. Melhor assim, um PM podia não achar graça na brincadeira. Apenas drinques clássicos por um preço ótimo. Esqueço que tinha começado a fazer dieta naquela manhã e peço um Mojito. Ele prepara com evidente conhecimento de causa, me entrega um copo descartável, mas super bonitinho, longo, de plástico duro. O Mojito tá uma delícia, a hortelã super fresca, o açúcar, na medida, o limão, nada amargo. Profissional. Fico feliz que manifestação de uma “esquerda” comporte esse tipo de luxo. Assim, até aqueles amigos que não cansam de dizer no Face que têm preguiça de tudo que é preocupação social iriam gostar. Baboo promete que virá toda semana. Então, quem sabe, eu volte e outros manifestantes acidentais apareçam.

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